segunda-feira, 27 de agosto de 2012
Eu prefiro... Eu desejo... Eu exijo...
Então é isso... Apesar de no fetichismo encontrarmos o foco da sexualidade em partes do corpo, lugares, roupas ou funções específicas e essa atração muitas vezes passar a linha limite da preferência para exigência, ainda assim há quem pense e afirme que devoteísmo seja uma mera atração como por loiras, morenas, etc...
Bem sei que não. Tanto não é que dentro do devoteísmo existe uma hierarquia ou uma qualificação de acordo com os gostos de cada devotee.
Pode parecer um tanto frio esse ponto de vista, mas assim é. Há no devoteísmo diferentes exigências. Falo em exigências para que fique claro que ser devotee não é algo que se possa escolher ou determinar um prazo de validade. Aos olhos dos devotees, ao toque dos devotees haverá sempre um brilho e uma intensidade maior quando se depararem com uma deficiente.
Há tempos idos, ainda em salas de bate papo, já existia uma separação entre dois grupos dentro do devoteísmo: Devotees Ortodoxos e Devotees Heterodoxos. Ou seja, devotees ortodoxos seriam pessoas com apenas um foco de atração e heterodoxos por mais de uma... Quase sempre ortodoxos preferem ou exigem amputadas e heterodoxos amputadas e outras. É preciso dizer sempre que há exceções, há devotees com uma gama de atração considerável sem no entanto apreciarem amputadas, mas são exceções.
Hoje, aqui no Brasil é mais comum dizer Devotees de Amputadas e Devotees Universais... E em alguns países devotees são considerados apenas pessoas que sentem atração por amputadas e admiradores os que estendem essa atração... Independentemente de como sejam separados esses dois grupos é fato que um sente atração apenas por amputadas e o outro por mais de uma deficiência ou diversas deficiências quase sempre incluíndo amputadas.
Nessa hierarquia do devoteísmo universal ou heteredoxos ou admiradores, amputações estão em primeiro lugar seguido de pólio,cadeirantes por pólio, paraplegia e outras. O que não quer dizer que não existam exceções, existem, óbvio.
Parece ser um pouco confuso, mas com o tempo vamos assimilando tantos labirintos.
Dentro das amputações ainda existem suas proprias hierarquias. A maioria dos devotees apreciadores de amputações tem no seu topo das atrações, amputações de membros inferiores acima do joelho ou bilaterais. Também em alguns casos preferem que suas musas não utilizem de próteses para ter um maior acesso aos olhos e ao toque dos cotos.
Talvez soe estranho, mas se formos realistas, não há como ser diferente. São as amputações, é o nosso universo que os atrai, uma hora ou outra o toque, o desejo pelos cotos irá entrar em erupção por mais que esses desejos em uma primeira visão choquem.
Quanto as demais deficiências o mesmo ocorre, são os membros sequelados a atrairem homens e mulheres, é a condição limitada pelo físico que atrai.
Se isso não for aceito, se isso não for o mote do devoteísmo, não é devoteísmo. Mesmo que sejam devotees platônicos é a deficiência que os atrai e ponto e pronto. Acredito que negar isso seja hipocrisia.
A partir da aceitação do devoteísmo tal como é, tudo fica mais simples. Encarar que haja uma escala hierárquica sem falso moralismo e sem melindres é outro ponto que pode e muito ajudar-nos a nos entendermos melhor sem falsas expectativas e sem cobranças indevidas.
Portanto, eles preferem... Eles gostam... Eles desejam... Eles exigem que... E nós deficientes podemos gostar ou não gostar, preferir ou não preferir, exigir ou não exigir, desejar ou não desejar um devotee ou varios... Mas eles, eles, não. Eles não têm escolhas entre o "sim" e o "não". Quando se é devotee existe apenas um caminho, o "sim". Mesmo que não aceitem-se como tal... A deficiência sempre estará provocando seus sentidos.
É isso.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
Eu, aleijadinha?
Um dos pontos polêmicos do devoteísmo são suas nomenclaturas. Nem todos
apreciam rótulos ou denominações. Devotee, para alguns passa hoje em
diversos sites a ter o significado que gostariam que tivesse, para
alguns amizade, para outros amor à alma, para outros admiração pela
aura do deficiente. Mas não é bem assim. Devoteísmo é devoteísmo. É um
fetiche, é uma parafilia. Gostem ou não.
Ou não estaríamos falando de devotees. Estaríamos falando de pessoas
que se relacionam com deficientes, incluíndo familiares, amigos,
namorados, simpatizantes, e até cuidadores sem serem necessariamente
devotees.
Óbvio que dentro de nosso círculo social e familiar poderemos encontrar
devotees. Mas é preciso que fique claro que devotees são pessoas atraídas por deficientes independente de ter um vínculo com algum de
nós.
O que verte desse conceito são características pessoais de cada devotee, de cada preferência, de cada exigência. Sim pois pra mim um devoteísmo num grau mais elevado é muito mais exigência que preferência.
A partir disso vem outra polêmica, o estranhamento e a negação com o prazer que sentem devotees com outros rótulos, outros adjetivos a nós direcionados. Entre eles, aleijados, tortos, mancos, etc...
Oras, sou ou não sou uma aleijada?
O significado de aleijado segundo o dicionario online de português é o seguinte:
Adj. Que tem algum aleijão; mutilado, estropiado, paralítico.
Pois sou uma aleijada! Sou amputada. Nada irá mudar isso. O termo "aleijada" soa pejorativo, soa desqualificativo, soa uma diminuição, soa quase um xingamento dependendo do contexto.
Mas em outro contexto, no contexto do devoteísmo, esse mesmo termo é quase uma provocação sensual, um apelo sexual e erótico. Sei que parece estranho e de mau gosto. Mas se um devotee sente atração por deficientes, sente atração por nossos aleijões. É isso que os atrai. Mesmo aos devotees cuidadores platônicos buscam em nós nossas sequelas e mazelas. Assim nada mais excitante para alguns devotees do que usar o termos "aleijadinha", "amputadinha" e outros como forma vocativa de carinho.
Já, para as deficientes, se estiverem realmente à vontade dentro de uma relação com um devotee e esse devotee souber trabalhar seus conflitos deixarão com o tempo todo o peso que possam ter adquirido ao serem apontadas como menos, como inferiores quando chamadas de aleijadas.
Será quase uma catarse. E catarses trazem à tona todos os nossos sentimentos negativos libertando de velhos e pesados traumas...
É isso...
Regina
Regina
terça-feira, 24 de julho de 2012
Ah, Os Cuidadores...
Para
começar é preciso dizer que há dois tipos de cuidadores: Cuidadores
formais e cuidadores informais, não estou me referindo a devotees,
somente “cuidadores”. O primeiro grupo está relacionado aos
profissionais da área de saúde. Geralmente são remunerados. Exemplo:
Médicos, enfermeiras, psicólogas entre outros.
O
segundo grupo, Cuidadores Informais, é o grupo dos leigos e familiares,
via de regra não são recompensados financeiramente pelos seus serviços.
Dentro desses dois grupos, Cuidadores Formais e Informais, é certo que encontraremos devotees.
Vejo
que existe certa confusão ao diferenciar um cuidador informal familiar
de um cuidador devotee. Ora, um devotee cuidador busca o “cuidar”, busca
o prazer de fazer parte do invólucro social do deficiente. Já o
cuidador familiar, quase sempre se encontra nessa situação porque foi
levado à ela. Portanto se não procurou, se foi levado à essa situação não é um devotee.
É
um erro atribuir ao devoteísmo cuidador um alto grau de altruísmo.
Mesmo não havendo qualquer contato físico ou sexual entre devotee
cuidador e deficientes há o componente “prazer”. O sentir-se bem
auxiliando é o que leva um devotee ao voluntariado. Nesse caminho pode o
devotee cuidador formal ou informal rasgar a seda que encobre seus
desejos e procurar o prazer sexual, mas não é regra.
Outro
fator que é preciso ser elencado: Alguns devotees cuidadores carregam
consigo – quase sempre inconscientemente - a imagem que estando perto
do deficiente terão atenção, carinho, notoriedade, enfim, terão prazer
em nosso Universo. Pode parecer estranho, mas basta prestar um pouco de
atenção para encontrar aqui ou ali devotees fascinados pelas nossas
almas, quando na verdade a terra que alicerça esse fascínio novamente é o
seu proprio deleite. Por isso o sexo não é o objetivo desses devotees.
Entre
tantos rótulos, vale à pena ressaltar que em alguns países são
considerados Devotos ou Devotees quem sente atração por amputados e
Admiradores àqueles que estendem a atração para outras deficiências
dentro de suas hierarquias pessoais.
Sendo
assim, o caleidoscópio do devoteísmo nos permite descobrir diversas
cores, formatos e dimensões dentro da complexidade humana. Devotees e
admiradores podem pincelar de características únicas a atração por
deficientes caminhando pelo vasto campo da sexualidade, ainda que, o
sexo a dois possa não existir como no voyerismo ou no “cuidar”.
Regina
domingo, 3 de junho de 2012
Na Periferia do Devoteísmo...
Há
algum tempo venho observando o surgimento de pessoas em nosso Universo
que em uma análise mais profunda não se encaixariam nos dois segmentos
que compõem a trilha devotee/ deficiente. São pessoas sem traços do
devoteísmo e sem deficiências aparentes.
Homens e mulheres que ao presenciarem o frêmito que envolve a atração por corpos diferenciados - por ações de vírus, doenças ou traumas - boquiabertos ancoram suas presenças entre nós.
Poderiam me dizer que se tais pessoas chegaram até aqui são devotees em busca de contato, ainda que inconscientemente. Seriam se aqui não estabelecessem domicílio por outros meios e por outros motivos.
Lembro-me de vários casos onde esse contato ocorreu por fatores diversos. Elencar todos seria leviano, pois não gostaria de citar pessoas ou nomes. Mas para exemplificar falemos de fakes, alguns deles apareceram entre nós atraídos até mesmo pelos nossos avatares. Leem as comunidades, nos leem e devagar vão se posicionando aqui e ali.
De início se surpreendem, duvidando que possa haver uma atração genuína por deficientes sem que esteja contaminada por outros fatores. É notória essa incredulidade quando passam a exercer nas comunidades o papel de superiores ou de uma condescendência preconceituosa tanto com devotees quanto com deficientes.
Em geral vêem as deficientes como mulheres sem atrativos e sem a periculosidade que uma rival, uma concorrente possa ter. Passam então ao assédio mais aberto aos devotees, sem aceitar que um homem possa desejar uma mulher não convencional conjecturando que ali está um homem de bem, um homem problemático que precisa ser salvo do dragão do seu próprio fetiche.
Ledo engano. Homens de bem, podem ser, como podem ser homens do mal, como podem ser homens que carregam o bem e o mal, muito mais provável, claro. Problemáticos? Alguns são. Mas não como essas pessoas pensam, não existe ali um fator preponderante a moldar o devoteísmo. Não existe a escolha por deficientes por serem menos ou mais atraentes, menos ou mais potentes. Existe a atração e como ela responde ao meio, ao caráter e aos atos desses homens.
O quê me chama a atenção nesses casos periféricos ao devoteísmo é a invisibilidade a que remetem as/os deficientes. A atenção não está voltada a nós, mas aos devotees. Ao serem indagadas respondem com evasivas, algumas simulam serem devotas sem sequer ter contato com deficientes ou travar uma conversa via comunidade.
O jargão subliminar é quase sempre o mesmo: “Estou aqui, quero ser vista! Esqueçam as deficientes".
Outro engano, outro tropeço.Não somos um grupo fechado às pessoas não-deficientes e não-devotees, mas a experiência demonstra em muitos casos que os periféricos são pouco aceitos em nosso Universo pelo preconceito e pela desmedida tentativa de polarizarem o devoteísmo entre inferioridade dos deficientes e superioridade dos devotees. Sendo o primeiro grupo desconsiderado e o segundo o alvo de investidas amorosas.
Tendo essas investidas quase sempre desprezadas, tais pessoas passam então a fazer parte da periferia, passam a habitar o limiar entre nosso Universo e o ostracismo.
Ostracismo esse combatido com redes e mais redes de conversações, de informações e às vezes de manipulações.
Para não pecar pelo excesso de críticas a essas pessoas, vale ressaltar que também entre nós existe certa discriminação entre deficientes. Pois se, entre aqueles que não são deficientes a idéia da atração por um corpo disforme causa espanto e incredulidade, entre alguns deficientes paira a falsa impressão que uma deficiente com seqüelas mais graves, com amputações mais severas não é ou não será atraente aos olhos de um devotee.
E nesse ponto, tanto os periféricos quanto as estrelinhas do devoteísmo compartilham do mesmo engano. Para um devotee, deficiente é deficiente. Para os devotos de amputadas, as amputações que lhes atraem são extremamente excitantes assim como para os admiradores, as deficiências variadas.
Se existe algum grau de atração é particular ou pessoal, não por serem mais ou menos deficientes.
Voltando à periferia... Impossibilitadas de enxergarem o óbvio, de assimilarem o miolo do devoteísmo, tais pessoas condenam-se a viverem de vãs esperanças e de atenções secundárias, não por não serem deficientes ou devotees, mas por não aceitarem a essência do devoteísmo. O glamour que acreditam pautar nosso Universo nada mais é do que homens e mulheres sendo exatamente quem e o quê são, ao menos aqui virtualmente. Já fora da virtualidade, esses fãs não conseguem se proliferar mas refazem os mesmos passos, redobrando seus esforços em salvarem seus objetos de desejo, quando na verdade, condenados estão todos eles a viverem na periferia do Devoteísmo.
É isso...
Regina
Homens e mulheres que ao presenciarem o frêmito que envolve a atração por corpos diferenciados - por ações de vírus, doenças ou traumas - boquiabertos ancoram suas presenças entre nós.
Poderiam me dizer que se tais pessoas chegaram até aqui são devotees em busca de contato, ainda que inconscientemente. Seriam se aqui não estabelecessem domicílio por outros meios e por outros motivos.
Lembro-me de vários casos onde esse contato ocorreu por fatores diversos. Elencar todos seria leviano, pois não gostaria de citar pessoas ou nomes. Mas para exemplificar falemos de fakes, alguns deles apareceram entre nós atraídos até mesmo pelos nossos avatares. Leem as comunidades, nos leem e devagar vão se posicionando aqui e ali.
De início se surpreendem, duvidando que possa haver uma atração genuína por deficientes sem que esteja contaminada por outros fatores. É notória essa incredulidade quando passam a exercer nas comunidades o papel de superiores ou de uma condescendência preconceituosa tanto com devotees quanto com deficientes.
Em geral vêem as deficientes como mulheres sem atrativos e sem a periculosidade que uma rival, uma concorrente possa ter. Passam então ao assédio mais aberto aos devotees, sem aceitar que um homem possa desejar uma mulher não convencional conjecturando que ali está um homem de bem, um homem problemático que precisa ser salvo do dragão do seu próprio fetiche.
Ledo engano. Homens de bem, podem ser, como podem ser homens do mal, como podem ser homens que carregam o bem e o mal, muito mais provável, claro. Problemáticos? Alguns são. Mas não como essas pessoas pensam, não existe ali um fator preponderante a moldar o devoteísmo. Não existe a escolha por deficientes por serem menos ou mais atraentes, menos ou mais potentes. Existe a atração e como ela responde ao meio, ao caráter e aos atos desses homens.
O quê me chama a atenção nesses casos periféricos ao devoteísmo é a invisibilidade a que remetem as/os deficientes. A atenção não está voltada a nós, mas aos devotees. Ao serem indagadas respondem com evasivas, algumas simulam serem devotas sem sequer ter contato com deficientes ou travar uma conversa via comunidade.
O jargão subliminar é quase sempre o mesmo: “Estou aqui, quero ser vista! Esqueçam as deficientes".
Outro engano, outro tropeço.Não somos um grupo fechado às pessoas não-deficientes e não-devotees, mas a experiência demonstra em muitos casos que os periféricos são pouco aceitos em nosso Universo pelo preconceito e pela desmedida tentativa de polarizarem o devoteísmo entre inferioridade dos deficientes e superioridade dos devotees. Sendo o primeiro grupo desconsiderado e o segundo o alvo de investidas amorosas.
Tendo essas investidas quase sempre desprezadas, tais pessoas passam então a fazer parte da periferia, passam a habitar o limiar entre nosso Universo e o ostracismo.
Ostracismo esse combatido com redes e mais redes de conversações, de informações e às vezes de manipulações.
Para não pecar pelo excesso de críticas a essas pessoas, vale ressaltar que também entre nós existe certa discriminação entre deficientes. Pois se, entre aqueles que não são deficientes a idéia da atração por um corpo disforme causa espanto e incredulidade, entre alguns deficientes paira a falsa impressão que uma deficiente com seqüelas mais graves, com amputações mais severas não é ou não será atraente aos olhos de um devotee.
E nesse ponto, tanto os periféricos quanto as estrelinhas do devoteísmo compartilham do mesmo engano. Para um devotee, deficiente é deficiente. Para os devotos de amputadas, as amputações que lhes atraem são extremamente excitantes assim como para os admiradores, as deficiências variadas.
Se existe algum grau de atração é particular ou pessoal, não por serem mais ou menos deficientes.
Voltando à periferia... Impossibilitadas de enxergarem o óbvio, de assimilarem o miolo do devoteísmo, tais pessoas condenam-se a viverem de vãs esperanças e de atenções secundárias, não por não serem deficientes ou devotees, mas por não aceitarem a essência do devoteísmo. O glamour que acreditam pautar nosso Universo nada mais é do que homens e mulheres sendo exatamente quem e o quê são, ao menos aqui virtualmente. Já fora da virtualidade, esses fãs não conseguem se proliferar mas refazem os mesmos passos, redobrando seus esforços em salvarem seus objetos de desejo, quando na verdade, condenados estão todos eles a viverem na periferia do Devoteísmo.
É isso...
Regina
segunda-feira, 28 de maio de 2012
Autoestima e Devoteísmo...
Autoestima segundo a wikipedia tem o seguinte conceito:
"Em psicologia, autoestima inclui a avaliação subjetiva que uma pessoa faz de si mesma como sendo intrinsecamente positiva ou negativa em algum grau (Sedikides & Gregg, 2003)."
A partir dessa premissa quero falar um pouco de como a autoestima do deficiente poder a vir a ter alterações em contato com o devoteísmo.
Por mais que escrevamos e digamos que ser deficiente nos dias de hoje seja diferente de há alguns anos, não podemos fingir que somos vistos como pessoas convencionais. Através do olhar do outro muitas vezes a nossa auto-estima se deteriora, pois fazemos dos olhares alheios o nosso próprio espelho.
Uma situação muito comum para os/as deficientes, é serem vistos como bons amigos, como bons companheiros ou confidentes. Enfim em um meio social que cultua o convencional passam a ser assexuados. Quando saem dessa linha, quando ousam, os comentarios feitos são em sua maioria em tom de deboche e preconceito.
Onde entra o devoteísmo em meu raciocínio? Não sou mais uma neófita nesse universo e nem os olhares alheios me atingem. Mas não posso desconsiderar o efeito que o devoteísmo possa ter em qualquer deficiente, homem ou mulher, em sua autoestima em um primeiro contato.
Principalmente se o meio em que vive for inóspito.
No devoteísmo tudo que era negativo passa a somar, passa a encantar, revira-se as entranhas do convencionalismo para ser uma obra de arte surreal apreciada e desejada como tal. A autoestima do deficiente passa por uma transformação. Há aqueles deficientes que negam esse encantamento, negam o fascínio dos desejos tortos, negam serem vistos como objetos, segundo eles. Mas ainda assim, têm consciência que são desejados.
E existem aqueles que se deixam levar pelo devoteísmo como se fosse uma droga para todos os dissabores que possam ter tido em suas vidas enquanto deficientes.
Mas nesse caminho muitas magoas podem se acumular. Não é segredo para ninguém que dentro do devoteísmo temos as mais variadas personalidades e formas de exercer essa atração. Então a mesma autoestima que um dia teve seu up, começa a pregar peças na necessidade de não se manter mais em alta se não tiver contatos efetivos com devotees.
No vai e vem dos devotees, surgem as dúvidas: “O que tem de errado comigo? Se sou deficiente, por que eles não me querem além de uma noite, duas, ou por que não sou a única?”
A autoestima consequentemente cai consideravelmente nesses casos a ponto de se sujeitarem a receber migalhas na ânsia de fugazes momentos em que se sintam bem novamente.
Mas o problema não está no/na deficiente e sim nesses relacionamentos que vão perpetuando o mito que ser devotee é ser colecionador, que ser devotee é ser compulsivo, que ser devotee é ter quantas mulheres quiser e sempre com a conivência das mesmas.
Se existe a compulsão, se existem as coleções, se a idéia de que o devoteísmo não comporta outro tipo de relacionamento se não o aberto, é porque os/as deficientes compactuam com isso.
A autoestima retrata com exatidão como se processam as relações devotee/deficiente. Pois se nos acostumamos ao que é ruim esquecemos que podemos ter relacionamentos muito melhores até mesmo dentro do devoteísmo.
O equilíbrio se faz necessário em nosso Universo. É preciso sim, ter uma autoestima elevada para que não nos deixemos atropelar por preconceitos que trazemos através dos anos, mas essa autoestima que se modifica com o conhecimento do devoteísmo não pode e não deve pautar nossas vidas e nem nossas relações humanas. Digo humanas pois vejo que muitas vezes os/as deficientes se atropelam sem um resquício de dignidade. O importante é ter no devoteísmo um incentivo, uma forma de relacionamento, mas não fazer dele o centro de nossas vidas. Um/a deficiente que pauta sua autoestima colecionando devotees ou almejando se relacionar com esse ou aquele mesmo sabendo do comprometimento existente entre algumas deficientes e alguns devotees não pode mais tarde fazer cobrança alguma, pois nem mesmo terá sua autoestima em socorro.
É um caminho degradante, infelizmente.
Autoestima e ego se completam quando um e outro dentro do devoteísmo conseguem se suprir sem violentar a dignidade.
Regina
"Em psicologia, autoestima inclui a avaliação subjetiva que uma pessoa faz de si mesma como sendo intrinsecamente positiva ou negativa em algum grau (Sedikides & Gregg, 2003)."
A partir dessa premissa quero falar um pouco de como a autoestima do deficiente poder a vir a ter alterações em contato com o devoteísmo.
Por mais que escrevamos e digamos que ser deficiente nos dias de hoje seja diferente de há alguns anos, não podemos fingir que somos vistos como pessoas convencionais. Através do olhar do outro muitas vezes a nossa auto-estima se deteriora, pois fazemos dos olhares alheios o nosso próprio espelho.
Uma situação muito comum para os/as deficientes, é serem vistos como bons amigos, como bons companheiros ou confidentes. Enfim em um meio social que cultua o convencional passam a ser assexuados. Quando saem dessa linha, quando ousam, os comentarios feitos são em sua maioria em tom de deboche e preconceito.
Onde entra o devoteísmo em meu raciocínio? Não sou mais uma neófita nesse universo e nem os olhares alheios me atingem. Mas não posso desconsiderar o efeito que o devoteísmo possa ter em qualquer deficiente, homem ou mulher, em sua autoestima em um primeiro contato.
Principalmente se o meio em que vive for inóspito.
No devoteísmo tudo que era negativo passa a somar, passa a encantar, revira-se as entranhas do convencionalismo para ser uma obra de arte surreal apreciada e desejada como tal. A autoestima do deficiente passa por uma transformação. Há aqueles deficientes que negam esse encantamento, negam o fascínio dos desejos tortos, negam serem vistos como objetos, segundo eles. Mas ainda assim, têm consciência que são desejados.
E existem aqueles que se deixam levar pelo devoteísmo como se fosse uma droga para todos os dissabores que possam ter tido em suas vidas enquanto deficientes.
Mas nesse caminho muitas magoas podem se acumular. Não é segredo para ninguém que dentro do devoteísmo temos as mais variadas personalidades e formas de exercer essa atração. Então a mesma autoestima que um dia teve seu up, começa a pregar peças na necessidade de não se manter mais em alta se não tiver contatos efetivos com devotees.
No vai e vem dos devotees, surgem as dúvidas: “O que tem de errado comigo? Se sou deficiente, por que eles não me querem além de uma noite, duas, ou por que não sou a única?”
A autoestima consequentemente cai consideravelmente nesses casos a ponto de se sujeitarem a receber migalhas na ânsia de fugazes momentos em que se sintam bem novamente.
Mas o problema não está no/na deficiente e sim nesses relacionamentos que vão perpetuando o mito que ser devotee é ser colecionador, que ser devotee é ser compulsivo, que ser devotee é ter quantas mulheres quiser e sempre com a conivência das mesmas.
Se existe a compulsão, se existem as coleções, se a idéia de que o devoteísmo não comporta outro tipo de relacionamento se não o aberto, é porque os/as deficientes compactuam com isso.
A autoestima retrata com exatidão como se processam as relações devotee/deficiente. Pois se nos acostumamos ao que é ruim esquecemos que podemos ter relacionamentos muito melhores até mesmo dentro do devoteísmo.
O equilíbrio se faz necessário em nosso Universo. É preciso sim, ter uma autoestima elevada para que não nos deixemos atropelar por preconceitos que trazemos através dos anos, mas essa autoestima que se modifica com o conhecimento do devoteísmo não pode e não deve pautar nossas vidas e nem nossas relações humanas. Digo humanas pois vejo que muitas vezes os/as deficientes se atropelam sem um resquício de dignidade. O importante é ter no devoteísmo um incentivo, uma forma de relacionamento, mas não fazer dele o centro de nossas vidas. Um/a deficiente que pauta sua autoestima colecionando devotees ou almejando se relacionar com esse ou aquele mesmo sabendo do comprometimento existente entre algumas deficientes e alguns devotees não pode mais tarde fazer cobrança alguma, pois nem mesmo terá sua autoestima em socorro.
É um caminho degradante, infelizmente.
Autoestima e ego se completam quando um e outro dentro do devoteísmo conseguem se suprir sem violentar a dignidade.
Regina
domingo, 20 de maio de 2012
Os Sem Rosto e o Devoteísmo...
Eu tenho pensado nas informações que estamos coletando na comunidade e
na diversidade delas. Alguns pontos em comum entre os devotees são
fáceis de serem observados e assimilados, não diria aceitos, pois ainda
existe uma desconfiança muito grande por parte das deficientes em
relação ao devoteísmo, ou melhor, não somente delas, mas da sociedade.
Por que essa desconfiança? Estamos há anos debatendo, mesmo aqueles mais novos entre nós estarão comemorando seus dois, três, quatro anos entre as paredes sem tijolos da internete, onde tudo o que se observa, tudo o que se vê não se apalpa, não tem cheiro ou gosto.
Eu sei que muito do que escrevemos aqui é mais do que falamos para nossos familiares ou melhores amigos, é comum nessas comunidades tanto deficientes quanto devotees usarem esses espaços para um auto conhecimento e revirarem suas entranhas.
Por que essa desconfiança? Estamos há anos debatendo, mesmo aqueles mais novos entre nós estarão comemorando seus dois, três, quatro anos entre as paredes sem tijolos da internete, onde tudo o que se observa, tudo o que se vê não se apalpa, não tem cheiro ou gosto.
Eu sei que muito do que escrevemos aqui é mais do que falamos para nossos familiares ou melhores amigos, é comum nessas comunidades tanto deficientes quanto devotees usarem esses espaços para um auto conhecimento e revirarem suas entranhas.
Apesar de ter consciência das relações virtuais e de como elas podem ser intensas, tenho consciência também que durante esses anos não vi nenhum devoto fazer um relato de estar envolvido com uma deficiente, de ter conhecido ou de ter dado prosseguimento a essas relações quando houve um encontro, dois ou mais.
O que podemos notar aqui ou ali, são devotees que vêm nos relatar suas experiências, mas os outros personagens desses relatos são anônimos, não que as pessoas precisem nomear ou identificar esses personagens, não é isso, porém fica a impressão que o outro lado não existe, ou estão escondidos por trás da deficiência. Existe sim o intenso desejo do contato real ou virtual, o devotee e a deficiência, mas isso é tudo.
Como uma deficiente irá processar essas informações? É muito comum uma ou outra irem até as páginas de seus devotos deixarem uma pista, um recado na necessidade de se auto afirmarem quando um contato virtual rompe suas barreiras e cai de braços abertos na realidade e então elas dizem entre mensagens subliminares ou diretas: "Olha, nós saímos, lembra? Estou aqui, já me esqueceu?"
E o que vem logo a seguir na maioria dos casos? Nada, somente o silêncio... Desculpas vazias, a insistência da deficiente, às vezes o rancor, a decepção e fim...
Eu sei, alguns de vocês dirão: “Mas eu tenho um caso com uma deficiente há anos, assumo o que faço, saio com ela”.
Outros me dirão: “Não encontrei a deficiente ideal para assumir um relacionamento”.
E ainda: “Eu quero apenas sexo”.
Tudo bem, não vou questionar os motivos ou as desculpas, se são bem embasadas ou não.
Não me agrada ser defensora nem de um lado e nem de outro, as relações humanas por via de regra são muito complexas para que tentemos resumir o devoteismo com feminino e masculino ou vice versa, ou seja: Uma deficiente, um devotee. Um deficiente, uma devotee. Não, não somos o impar procurando o seu par. Claro, quando o encontro acontece pode ser perfeito.
Mas não lhes parece estranho que em anos de convívio e debates virtuais, nenhuma deficiente tenha vindo aqui relatar um contato que soasse mais agradável aos olhos de quem lê ou satisfatório à elas? Ou que algum devotee não tenha vindo dividir conosco as delícias de um envolvimento além do fetiche?
Isso tudo é muito nebuloso quando nos deixamos apequenar e escorrer o devoteísmo e a deficiência pelo funil dos rótulos. Quando nós mesmos perguntamos a esse ou aquele: Qual sua deficiência preferida? Ou... Já teve contato com devotees?
Geramos idéias errôneas, como se a deficiência e o devoteismo por si se bastassem... Não bastam, por isso ainda temos fantasmas, corpos sem rostos, sem identidade e expectativas absurdas tanto de um lado quanto do outro, pessoas lutando para ganhar uma face quando já as têm, mas não são vistas.
Regina
quarta-feira, 16 de maio de 2012
À Sua Semelhança...
Tenho observado entre nossos devotos um quê de dificuldade em relação aos amigos, familiares na aceitação do devoteísmo principalmente quando eles são oriundos de famílias religiosas e pensando nisso foi que resolvi escrever um pouquinho a respeito...
Para iniciar meu texto, trago o pensamento e a imagem que ainda vêmos em contos de fadas, filmes e principalmente a vigência atual pela busca de um corpo perfeito. O perfeito para o ser humano assemelha-se ao belo ao bom, à luz. As anomalias, o
disforme, o assimétrico, os aleijões são tidos em contrapartida como feio, escuro, mau.
Quando nos vêmos diante do antigo testamento, em Gênesis, na criação do mundo, e do homem, ao meio ao caos, segundo a Bíblia, se faz a luz, e assim posteriormente teremos a criação de todas as coisas e por fim o Homem à semelhança de Deus.
Ótimo, cria-se um homem perfeito, belo, simétrico, único e da perfeição dele surge Eva, pobre Eva... Enfim, todo o mal foi relegado ao feio, ao assimétrico, ao torto da primícia que somos perfeitos, bons, se formos semelhantes à Deus.
Na mitologia grega nos deparamos com Hefesto o Deus deficiente que não aceito no Olimpo é exilado às entranhas da terra onde exercerá uma atividade não exercida pelos deuses. Hefesto é um mito e como tal nos remete à origem, às raízes da sociedade, dos costumes, das leis, dos medos e quiçá do nosso velho conhecido o preconceito.
Oras, tudo que possa ser diferente de Deus ou dos Deuses é imperfeito, invoca o pecado, o profano, o castigo.
A deficiência passa a ser excludente. A humanidade adota o perfeito em nome de Deus, e assim seguem as várias vertentes religiosas.
E isso se torna tão forte e pungente que ainda hoje o deficiente é visto como um castigo, um meio de provação para si mesmo ou para aqueles que têm contato com sua realidade.
Sexo? O que é sexo para deficientes? Impossível serem desejados, dirão alguns, são pessoas indesejáveis, profanas, não bem quistas, tortas, feias. Ou não dirão, mas estará em seus inconscientes gravado pela história coercitiva da humanidade, seus mitos, sua religiosidade, suas crenças.
E por mais que neguem, sugiram outras teorias a respeito do preconceito quanto aos desejos tortos, não vejo outra explicação se não a própria história da deficiência dentro da religião e da sociedade.
Estão intrinsicamente ligados deficiência e devoteísmo quando o contexto é a negação da sexualidade do deficiente, do desejo do deficiente. Ao deficiente introjeta-se a imagem do pecado, do castigo, da ferramenta, do sofrimento, sem direito ao prazer, ao sexo pelo sexo, e nem mesmo para procriação. Aos devotees introjeta-se a imagem daquele que ousa a desejar o indesejável, ao que nega a perfeição de Deus para seu deleite, para seu êxtase.
Deixemos de lado todas as conseqüências, todas as relações devotees/deficientes, voltemos ao início, voltemos ao nosso Gênesis e veremos que o estranhamento pela atração que devotees sentem por nós deficientes está relacionado ao nosso próprio estranhamento, à nossa ignorância quanto à outras deficiências, à nossa intolerância com o que nós é também diferente. Porque alguns de nós também buscam no outro a semelhança com o perfeito, com o simétrico, com Vênus, com Adão, com Eva, com Eros, e não a semelhança com Hefesto.
E quem somos nós para condenarmos o torto, o imperfeito, a anomalia, o aleijão?
Se a religião, a sociedade impõem seus milhares de anos de excludencia do diferente e estamos buscando em outros pontos sermos aceitos, por que a dificuldade de tantos deficientes aceitarem que assim como nós nascemos ou nos tornamos diferentes existem pessoas que não são portadoras de nenhuma característica física torta, mas são portadoras de desejos diferentes, de desejos que não se encaixam na convencionalidade das religiões e sociedade? Se muitos deficientes tem essa dificuldade em aceitar, em assimilar, em deixar o preconceito de lado, como outras pessoas aceitarão?
Por outro prisma, os próprios devotees não se aceitam, caem nas mesmas armadilhas dos estereótipos, dos paradigmas da perfeição coercitiva da maioria. E preferem apegarem-se à ela, mesmo não concordando.
O que fazer? Comecei esse texto falando das famílias, e termino falando do indivíduo, da mudança de dentro pra fora, do um para dois, três, quatro ou mais... Para que tanto os deficientes sejam aceitos quanto os devotees, cada uma na sua maneira torta de ser.
A semelhança com Deus? Não sei, não... Não conheço um Deus em carne, osso, sangue, corpo e face, portanto difícil dizer qual de nós se parece com ele fisicamente.
Regina
Para iniciar meu texto, trago o pensamento e a imagem que ainda vêmos em contos de fadas, filmes e principalmente a vigência atual pela busca de um corpo perfeito. O perfeito para o ser humano assemelha-se ao belo ao bom, à luz. As anomalias, o
disforme, o assimétrico, os aleijões são tidos em contrapartida como feio, escuro, mau.
Quando nos vêmos diante do antigo testamento, em Gênesis, na criação do mundo, e do homem, ao meio ao caos, segundo a Bíblia, se faz a luz, e assim posteriormente teremos a criação de todas as coisas e por fim o Homem à semelhança de Deus.
Ótimo, cria-se um homem perfeito, belo, simétrico, único e da perfeição dele surge Eva, pobre Eva... Enfim, todo o mal foi relegado ao feio, ao assimétrico, ao torto da primícia que somos perfeitos, bons, se formos semelhantes à Deus.
Na mitologia grega nos deparamos com Hefesto o Deus deficiente que não aceito no Olimpo é exilado às entranhas da terra onde exercerá uma atividade não exercida pelos deuses. Hefesto é um mito e como tal nos remete à origem, às raízes da sociedade, dos costumes, das leis, dos medos e quiçá do nosso velho conhecido o preconceito.
Oras, tudo que possa ser diferente de Deus ou dos Deuses é imperfeito, invoca o pecado, o profano, o castigo.
A deficiência passa a ser excludente. A humanidade adota o perfeito em nome de Deus, e assim seguem as várias vertentes religiosas.
E isso se torna tão forte e pungente que ainda hoje o deficiente é visto como um castigo, um meio de provação para si mesmo ou para aqueles que têm contato com sua realidade.
Sexo? O que é sexo para deficientes? Impossível serem desejados, dirão alguns, são pessoas indesejáveis, profanas, não bem quistas, tortas, feias. Ou não dirão, mas estará em seus inconscientes gravado pela história coercitiva da humanidade, seus mitos, sua religiosidade, suas crenças.
E por mais que neguem, sugiram outras teorias a respeito do preconceito quanto aos desejos tortos, não vejo outra explicação se não a própria história da deficiência dentro da religião e da sociedade.
Estão intrinsicamente ligados deficiência e devoteísmo quando o contexto é a negação da sexualidade do deficiente, do desejo do deficiente. Ao deficiente introjeta-se a imagem do pecado, do castigo, da ferramenta, do sofrimento, sem direito ao prazer, ao sexo pelo sexo, e nem mesmo para procriação. Aos devotees introjeta-se a imagem daquele que ousa a desejar o indesejável, ao que nega a perfeição de Deus para seu deleite, para seu êxtase.
Deixemos de lado todas as conseqüências, todas as relações devotees/deficientes, voltemos ao início, voltemos ao nosso Gênesis e veremos que o estranhamento pela atração que devotees sentem por nós deficientes está relacionado ao nosso próprio estranhamento, à nossa ignorância quanto à outras deficiências, à nossa intolerância com o que nós é também diferente. Porque alguns de nós também buscam no outro a semelhança com o perfeito, com o simétrico, com Vênus, com Adão, com Eva, com Eros, e não a semelhança com Hefesto.
E quem somos nós para condenarmos o torto, o imperfeito, a anomalia, o aleijão?
Se a religião, a sociedade impõem seus milhares de anos de excludencia do diferente e estamos buscando em outros pontos sermos aceitos, por que a dificuldade de tantos deficientes aceitarem que assim como nós nascemos ou nos tornamos diferentes existem pessoas que não são portadoras de nenhuma característica física torta, mas são portadoras de desejos diferentes, de desejos que não se encaixam na convencionalidade das religiões e sociedade? Se muitos deficientes tem essa dificuldade em aceitar, em assimilar, em deixar o preconceito de lado, como outras pessoas aceitarão?
Por outro prisma, os próprios devotees não se aceitam, caem nas mesmas armadilhas dos estereótipos, dos paradigmas da perfeição coercitiva da maioria. E preferem apegarem-se à ela, mesmo não concordando.
O que fazer? Comecei esse texto falando das famílias, e termino falando do indivíduo, da mudança de dentro pra fora, do um para dois, três, quatro ou mais... Para que tanto os deficientes sejam aceitos quanto os devotees, cada uma na sua maneira torta de ser.
A semelhança com Deus? Não sei, não... Não conheço um Deus em carne, osso, sangue, corpo e face, portanto difícil dizer qual de nós se parece com ele fisicamente.
Regina
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