segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Em tempos de Facebook...




Há tempos não escrevo um texto no blog, confesso que por falta de tempo para aqui estar. O interessante é que mesmo mantendo minhas letras em dia em outros sites sinto falta de escrever em nosso Universo. Tenho lido uma coisa e outra quando entro. As observações das deficentes ainda têm um ponto nevrálgico, ou seja, a infidelidade dentro do devoteísmo. Por outro lado temos devotees que ora se agridem ora juntam forças tentando provar que existem devotees fiéis e disposto a um relacionamento monogâmico.

Acredito que existam, ainda não presenciei tal fato, mas tais devotees devem existir. Gostaria de lembrá-los que a internete propicia uma interação maior e consequentemente um trânsito livre embora muitas vezes esse ir e vir seja feito por labirintos e entre névoas, ainda assim para àqueles que buscam “liberdade" sem dúvida via web esse transitar torna-se bastante convidativo. Em um tema tão controvertido como o devoteísmo por mais que insistam que não, esperar que sejamos diferente nesse mar de emails, orkuts, facebooks, sites de relacionamentos diversos é no mínimo utopia. Existe uma variedade muito grande de cores e sabores. Com o tempo, algumas amizades se fortalecem e outras se diluem. Portanto usemos de bom senso ao travarmos contato com esse ou aquele para não cairmos na vala comum dos desinformados.

 É fato que alguns devotees trouxeram esses costumes já de fora da net e fora da nossa atmosfera, mais um motivo para ter cuidado com as tais expectativas. A compulsão e a infidelidade não nasceram dentro da internete, mas dentro da internete encontraram um campo fértil. Em contra partida encontraram também deficientes, ou melhor, pessoas que podem trocar informações com maior facilidade a respeito de qualquer tema ou indivíduo do seu interesse. Gerando assim muitas vezes conflitos entre a liberdade e a privacidade.

Não há inocentes e culpados, há quase sempre uma diferença de foco e de desejo. Mas está claro que deficientes esperam bem mais, muito mais, do que a maioria dos devotees pode ou quer ceder. Mas não é algo inerente apenas ao nosso Universo, os costumes estão mundando, o comportamento humano vem mudando ao longo das últimas décadas. Cada vez mais ficam escassas as relações e a procura por relações estáveis.

E em nosso contexto essa escassez se agrava pela estatística de um número considerável de deficientes e um número não tão considerável de devotees favorecendo-os quando  compulsivos.
Os grupos, os sites, as comunidades hoje são muito mais usados para estabelecer contato entre as pessoas do que propriamente para debates. O que por um lado é ótimo, o medo do desconhecido esvai-se entre uma palavra e outra. A relativa invisibilidade propicia a liberdade de externar desejos contidos e críticas que talvez não chegassem a lugar algum ao menos são lidas.

Mas, quanto aos debates em si... Esses, sinto que vão perdendo espaço, vão cedendo lugar ao deslumbramento e muitas vezes desencantamento consecutivo e instantâneo  pela falta de tato de alguns ao reduzirem deficientes e devotees a meros pedaços de carne a satisfazerem carências e desejos. E, como nem sempre a carne crua é bem digerida, assim também algumas palavras e expressões ao invès de promoverem um entendimento melhor entre os interessados pode sim acarretar um distanciamento maior.

 Diante dessa realidade perdemos a oportunidade de conhecermos um devoteísmo sem máscaras quando com palavras coagimos e inibimos devotees que estão dispostos a um debate sério a se posicionarem honestamente e são raros, bem raros. Da mesma forma que inibimos e coagimos deficientes de colocarem suas dúvidas pelo medo de serem ridicularizadas quando tentam se posicionar sem serem meras respostas ao que anseiam devotees. E essa tal liberdade que tanto ansiamos ao fim restringe-se não a de expressão ou des escolha mas sim e muito  a adubar relações rasas e efêmeras e em nosso universo um grande e imenso rodízio às vezes se faz presente solidificando o devoteísmo compulsivo.  Sem que no entanto estejam cientes devotees e deficientes de que isso não é liberdade, é muito mais viver um devoteísmo fast food.

 Assim é, assim tem sido, grupos e mais grupos surgem no facebook desde àqueles voltados à postagens de fotos eróticas, fotos de nus mais explícitos, conversações mais apimentadas em chats a poucos grupos que buscam debates sobre a relação deficiente/devotees. Se tudo já foi dito, postado, revirado, infelizmente sequer é lido por alguns que simplesmente em nome da liberdade trilham ao que me parece um caminho inverso ao da escolha consciente alimentando inconscientemente a compulsão dentro do devoteísmo. Não digo infidelidade. Para ser fiel é necessario antes um compromisso, um pacto ainda que velado,  isso me parece ainda difícil de acontecer.

Eu sei, nada muito diferente do universo lá fora, mas aqui  há a singularidade de devoteísmo ser um fetiche e que algumas deficientes ainda não se deram conta disso. Por outro lado, alguns homens deficientes parecem se apegar somente ao termo fetiche ao abordar as meninas devotees sem considerar que possam ser diferentes entre si e que estejam buscando cada uma a sua propria historia amorosa ou não. Assim as expectativas muitas vezes seguem um caminho contrario quando lidamos não apenas com deficientes e devotees mas sim com as diferenças entre os sexos e as diferenças, ainda bem, também entre pessoas do mesmo sexo. Tudo isso em nome da liberdade de se postar, curtir, compartilhar, falar e agir sem a responsabilidade de enxergar o outro, como se o outro fosse apenas o reflexo dos seus desejos. Mas nem mesmo o espelho é totalmente fiel ao nos devolver nossas faces...

Regina

domingo, 9 de setembro de 2012

Das Dores e Delícias do Devoteísmo...




Há uma música que diz:
"Cada um sabe bem a delícia e a dor de ser o que é."

No auge dos debates tanto hoje quanto antigamente, houve e há uma tendência forte de colocarmos o devoteísmo em primeiro plano e nós deficientes como meros expectadores. Esperamos, esperamos e esperamos. Mas... Exatamente o quê?
Alguns ficam em suas janelas a jogar pedras, outros rosas. Outros abrem suas portas, outros trancam a casa. Mas indiferente, nenhum deficiente se mantem.

Sempre gosto de lembrar as primeiras deficientes que ousaram, que fincaram suas personalidades nesse caminho que temos trilhado. Tudo era tão mais complicado. Considero-as verdadeiras desbravadoras. Essas sim, merecem toda a admiração possível. Em tempo, não me incluo, se elas me lerem, saberão que à elas deixo minha homenagem.


Muitas coisas mudaram, mas ainda sinto que poucas, raras deficientes ousam dizer: "Sim, me envolvi com um devotee, e daí?" 

Em um tópico em nossa comunidade me indagaram se eu mesma me envolveria novamente com um devotee... E disso comentários e mais comentários a respeito foram postados a respeito das relações com devotees e com não-devotees. 

Cada relacionamento é único. Por ser único a soma nos traz um resultado diferente.

Quero falar hoje, no entanto, apenas e tão somente do fascínio das deficientes pelo devoteísmo. Quero retirá-as do estado estático que insistem em ficar, mesmo que, participem dos debates.

Sim o devoteísmo fascina. Se assim não fosse, não seria polêmico, não seria notado, não seria execrado, amado ou odiado. E até tratado com deboche.

Lá fora, como costumamos dizer, o mundo gira ao redor da simetria, dos bípedes perfeitos... Ou com defeitos mascarados pela carne. Aqui não. Aqui estamos do avesso, somos assimétricos, tortos. Sim, somos. Não entendo bem, essa mania de algumas pessoas desejarem se enquadrar em quadrados, em quadros. Mesmo que tenham de se violentar.


Então o véu é retirado. Nos vêmos diante dos mais primitivos instintos. Somos desejados! O que fazer com o desejo que despertamos? Bailamos de um lado para o outro. Tantos conceitos, tantos senões, tantos arranhões. E esse frênesi, o arrepio na espinha... Aquele pensamento torto: Devo tentar?

Há acredito, eu, infinitas nuances no devoteísmo. Mas algo é peculiar a todo devotee. O olhar. Só um devotee pode e vai nos olhar como quem deseja saciar sua fome. Vasculhar nossos aparatos, vislumbrar o que se esconde dentro e por trás das próteses, orteses, cadeiras... Basta um olhar para que saibamos que ali se encontra um devotee.

Muito dessa atração, dessa energia, sentimos na net. Sentimos o fio que nos liga.
Todas as teorias, todos os discursos prós e contra o devoteísmo giram ao redor disso. Às vezes penso que todos esses debates são apenas disfarces nessa ciranda onde encontramos essa necessidade de estarmos ligados uns aos outros.

O devoteísmo pode nos dar o céu e o inferno. Muda nossos conceitos, inverte o significado das palavras. É preciso aprender um nomo idioma. Aleijado, não é mais pejorativo, é excitante dependendo do contexto.
Usar cadeira de rodas, próteses, aparatos não mais é apenas necessidade, mas motivo de admiração, motivo de atenção... Ser amputada, ter sequelas de polio, ser paraplégica ou tetraplégica, enfim, ser deficiente é quase ser e ter o ápice da perfeição para alguns. Dentro de um relacionamento isso tudo faz toda a diferença, se houver além disso afinidade, admiração e empatia. Não sei, não sei sinceramente se pode ou poderia haver relação mais forte, mais dolorosa, mais prazerosa e mais visceral.

E eu pergunto, como esse redemoinho pode passar em branco por uma deficiente? Se nem mesmo para os devotees isso acontece?

Difícil jornada essa nossa. Difícil momento. Onde o devoteísmo passa a ser somente o que ele é, um fetiche. Sem que nós, algumas deficientes, essas que ousaram conhecer o sal e o açúcar, o vinho e o vinagre, passamos longe de sequer sermos consideradas mulheres cientes das dores e das delícias de sermos o que somos. Mulheres, deliciosamente, dolorosamente... Mulheres.


domingo, 2 de setembro de 2012

Dr. Miguel... O Cuidador.




Para quem não sabe, Dr. Miguel foi um dos personagens da novela Viver A Vida. Viver a Vida chamou a atenção dos deficientes em geral pela trama tecida ao redor de Luciana, uma jovem modelo que torna-se tetraplégica. 

Houve uma discussão sobre o desfecho do drama vivido pela personagem, inclusive levantou-se a hipótese dela voltar a andar, o que não ocorreu já que o objetivo da novela era de alguma forma mostrar pessoas a se adaptarem à novas situações. Não direi superações, pois o lado negativo também delas existe quando se passa a impressão de que aqueles que não respondem ao que esperam  familia e sociedade em momentos díficeis, esses são relegados e sequer vistos e considerados. Prefiro pensar que cada qual com seu histórico de vida faz sempre seu melhor.  

Bom, voltando ao tema... É sabido entre paraplégicos e tetraplégicos que suas dificuldades vão além da dependência de uma cadeira de rodas ou de seus cuidadores. Mas hoje quero falar um pouco do médico que a acompanhou a personagem Luciana desde o início da trama, ainda na fase andante.

Miguel era um jovem médico,  namorado de uma moça problemática que sofria o transtorno da drunkorexia: A ingestão de bebidas alcoólicas ao invés de alimentos.
Apresentados as personagens, quero elencar algumas das características de Miguel. 

Não sei quais os critérios do autor ao compor personagens, se intuitivos ou embasados em pequisas, talvez outros, talvez os dois. Mas para mim desde os primeiros capítulos Miguel demonstrava ter características muito fortes de um cuidador.
Dividido entre a atração que sentia pela modelo ainda andante e os cuidados com sua namorada trilhava seus conflitos. Médico e como tal por si só, já era um cuidador formal. Cuidadores formais são todos aqueles que fazem parte da área assistencial, desde médicos, psicólogos, enfermeiros, etc.

Cuidadores informais são aqueles que prestam cuidados sem serem remunerados ou reconhecidos como profissionais. Miguel então também era um cuidador informal, já que prestava todos os cuidados à sua namorada problemática. O casal soava até meio estranho, sem encaixe, mas conforme a novela se desenrolava, Miguel foi acentuando sua devoção àqueles que necessitavam de seus cuidados. Devotee? Em potencial, talvez. Submerso. Sempre mesclando atração e cuidado. Fascínio e ternura.

Assim como nem todos os problemas da tetraplegia foram abordados pelo autor, nem todas as características do devoteísmo foram  vistas em Miguel.
A personalidade cuidadora de Miguel talvez tenha sido trabalhada para não soar fora do contexto. Mas é certo que o médico transpirava devoteísmo em suas cenas com a modelo. Os carinhos, o olhar, os toques, os cuidados iam além da atração que desde o início demonstrava por ela. Assim como a atenção para com a namorada foi cessando paulatinamente. O relacionamento se deteriorando enquanto que com Luciana foi se completando, se encaixando no que parecia ser o ideal para o médico... Devoção e paixão. 

No decorrer da novela deficientes reais foram inseridos à trama ajudando Luciana a tirar suas dúvidas em relação a propria sexualidade. O interessante é que não me lembro de Miguel ter tido essas dúvidas ou procurado informaçõe. Manteve-se  quase expectador de si mesmo. Não sei, não acredito que qualquer pessoa que se envolva com deficientes não tenha dúvidas ou não procure também informações sobre a sexualidade da pessoa de seu interesse. Por outro lado, pessoas casadas, namorados de deficientes prestavam seus depoimentos como se fossem verdadeiros príncipes e princesas. 
Em nenhum momento cogitou-se que também o outro, o par do deficiente pudesse sentir prazer em seus relacionamentos e estivesse nesses relacionamentos por outro qualquer sentimento que não fosse amor. Jamais uma atração, jamais o prazer que sabemos que devotees sentem com nosso universo e nós mesmos.

Por que bato nessa tecla? Pois vejo que ainda nossos contatos, namorados, ficantes revestem-se de uma aura de pessoas a nos completar e nunca o contrario, nós, homens e mulheres deficientes completando nossos pares.

Quanto a Dr. Miguel... Findou a trama casando-se com Luciana como num verdadeiro conto de fadas. O que é natural e esperado tratando-se de novelas. O devoteísmo cuidador e ativo ainda que o autor não soubesse ou não quisesse ficou implícito nas entrelinhas. O devoteísmo muito mais do que o devotee  esteve presente entre Miguel e Luciana...

Regina

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Eu prefiro... Eu desejo... Eu exijo...



Então é isso... Apesar de no fetichismo encontrarmos o foco da sexualidade em partes do corpo, lugares, roupas ou funções específicas e essa atração muitas vezes passar a linha limite da preferência para exigência, ainda assim há quem pense  e afirme que devoteísmo seja uma mera atração como por loiras, morenas, etc...
Bem sei que não. Tanto não é que dentro do devoteísmo existe uma hierarquia ou uma qualificação de acordo com os gostos de cada devotee.

Pode parecer um tanto frio esse ponto de vista, mas assim é. Há no devoteísmo diferentes exigências. Falo em exigências para que fique claro que ser devotee não é algo que se possa escolher ou determinar um prazo de validade.  Aos olhos dos devotees, ao toque dos devotees haverá sempre um brilho e uma intensidade maior quando se depararem com uma deficiente.

Há tempos idos, ainda em salas de bate papo, já existia uma separação entre dois grupos dentro do devoteísmo: Devotees Ortodoxos e Devotees Heterodoxos. Ou seja, devotees ortodoxos seriam pessoas com apenas um foco de atração e heterodoxos por mais de uma... Quase sempre ortodoxos preferem ou exigem amputadas e heterodoxos amputadas e outras.  É preciso dizer sempre que há exceções, há devotees com uma gama de atração considerável sem no entanto apreciarem amputadas, mas são exceções.

Hoje, aqui no Brasil é mais comum dizer Devotees de Amputadas e Devotees Universais...  E em alguns países devotees são considerados apenas pessoas que sentem atração por amputadas e admiradores os que estendem essa atração...  Independentemente de como sejam separados esses dois grupos é fato que um sente atração apenas por amputadas e o outro por mais de uma deficiência ou diversas deficiências quase sempre incluíndo amputadas.

Nessa hierarquia do devoteísmo universal ou heteredoxos ou admiradores, amputações estão em primeiro lugar seguido de pólio,cadeirantes por pólio, paraplegia e outras. O que não quer dizer  que não existam exceções, existem, óbvio.

Parece ser um pouco confuso, mas com o tempo vamos assimilando tantos labirintos.

Dentro das amputações ainda existem suas proprias hierarquias. A maioria dos devotees apreciadores de amputações tem no seu topo das atrações, amputações de membros inferiores acima do joelho ou bilaterais.  Também em alguns casos preferem que suas musas não utilizem de próteses para ter um maior acesso aos olhos e ao toque dos cotos.

Talvez soe estranho, mas se formos realistas, não há como ser diferente. São as amputações, é o nosso universo que os atrai, uma hora ou outra o toque, o desejo pelos cotos irá entrar em erupção por mais que esses desejos em uma primeira visão choquem.

Quanto as demais deficiências o mesmo ocorre, são os membros sequelados a atrairem homens e mulheres, é a condição limitada pelo físico que atrai.

Se isso não for aceito, se isso não for o mote do devoteísmo, não é devoteísmo. Mesmo que sejam devotees platônicos é a deficiência que os atrai e ponto e pronto. Acredito que negar isso seja hipocrisia.

A partir da aceitação do devoteísmo tal como é,  tudo fica mais simples. Encarar que haja uma escala hierárquica sem falso moralismo e sem melindres é outro ponto que pode e muito ajudar-nos a nos entendermos melhor sem falsas expectativas e sem cobranças  indevidas.

Portanto, eles preferem... Eles gostam... Eles desejam... Eles exigem que... E nós deficientes podemos gostar ou não gostar, preferir ou não preferir, exigir ou não exigir, desejar ou não desejar um devotee ou varios... Mas eles,  eles, não. Eles não têm escolhas entre o "sim" e o "não". Quando se é devotee existe apenas um caminho, o "sim". Mesmo que não aceitem-se como tal... A deficiência sempre estará provocando seus sentidos.

É isso.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Eu, aleijadinha?




Um dos pontos polêmicos do devoteísmo são suas nomenclaturas. Nem todos apreciam rótulos ou denominações. Devotee, para alguns passa hoje em diversos sites a ter o significado que gostariam que tivesse, para alguns amizade, para outros amor à alma, para outros  admiração pela aura do deficiente.  Mas não é bem assim. Devoteísmo é devoteísmo. É um fetiche, é uma parafilia. Gostem ou não. 
Ou não estaríamos falando de devotees.  Estaríamos falando de pessoas que se relacionam com deficientes, incluíndo familiares, amigos, namorados, simpatizantes, e até cuidadores sem serem necessariamente devotees.
Óbvio que dentro de nosso círculo social e familiar poderemos encontrar devotees. Mas é preciso que fique claro que devotees são pessoas atraídas por deficientes independente de ter um vínculo com algum de nós.

O que verte desse conceito são características pessoais de cada devotee, de cada preferência, de cada exigência. Sim pois pra mim um devoteísmo num grau mais elevado é muito mais exigência que preferência.

A partir disso vem outra polêmica, o estranhamento e a negação com o prazer que sentem devotees com outros rótulos, outros adjetivos a nós direcionados. Entre eles, aleijados, tortos, mancos, etc... 

Oras, sou ou não sou uma aleijada?

O significado de aleijado segundo o dicionario online de português é o seguinte:

Adj. Que tem algum aleijão; mutilado, estropiado, paralítico.

Pois sou uma aleijada! Sou amputada. Nada irá mudar isso. O termo "aleijada" soa pejorativo, soa desqualificativo, soa uma diminuição, soa quase um xingamento dependendo do contexto.
Mas em outro contexto, no contexto do devoteísmo,  esse mesmo termo é quase uma provocação sensual, um apelo sexual e erótico.  Sei que parece estranho e de mau gosto. Mas se um devotee sente atração por deficientes, sente atração por nossos aleijões. É isso que os atrai. Mesmo aos devotees cuidadores platônicos  buscam em nós nossas sequelas e mazelas. Assim nada mais excitante para alguns devotees do que usar o termos "aleijadinha", "amputadinha" e outros como forma vocativa de carinho.

Já, para as deficientes, se estiverem realmente à vontade dentro de uma relação com um devotee e esse devotee souber trabalhar seus conflitos  deixarão com o tempo todo o peso que possam ter adquirido ao serem apontadas como menos, como inferiores quando chamadas de aleijadas.  
Será quase uma catarse. E catarses trazem à tona todos os nossos sentimentos negativos libertando de velhos e pesados traumas...

É isso...

Regina

terça-feira, 24 de julho de 2012

Ah, Os Cuidadores...



Para começar é preciso dizer que há dois tipos de cuidadores: Cuidadores formais e cuidadores informais, não estou me referindo a devotees, somente “cuidadores”. O primeiro grupo está relacionado aos profissionais da área de saúde. Geralmente são remunerados. Exemplo: Médicos, enfermeiras, psicólogas entre outros.

O segundo grupo, Cuidadores Informais, é o grupo dos leigos e familiares, via de regra não são recompensados financeiramente pelos seus serviços.

Dentro desses dois grupos, Cuidadores Formais e Informais, é certo que encontraremos devotees.

Vejo que existe certa confusão ao diferenciar um cuidador informal familiar de um cuidador devotee. Ora, um devotee cuidador busca o “cuidar”, busca o prazer de fazer parte do invólucro social do deficiente. Já o cuidador familiar, quase sempre se encontra nessa situação porque foi levado à ela. Portanto se não procurou, se foi levado à essa situação não é um devotee.

É um erro atribuir ao devoteísmo cuidador um alto grau de altruísmo. Mesmo não havendo qualquer contato físico ou sexual entre devotee cuidador e deficientes há o componente “prazer”. O sentir-se bem auxiliando é o que leva um devotee ao voluntariado. Nesse caminho pode o devotee cuidador formal ou informal rasgar a seda que encobre seus desejos e procurar o prazer sexual, mas não é regra.

Outro fator que é preciso ser elencado: Alguns devotees cuidadores carregam consigo – quase sempre inconscientemente - a imagem que estando perto do deficiente terão atenção, carinho, notoriedade, enfim, terão prazer em nosso Universo. Pode parecer estranho, mas basta prestar um pouco de atenção para encontrar aqui ou ali devotees fascinados pelas nossas almas, quando na verdade a terra que alicerça esse fascínio novamente é o seu proprio deleite. Por isso o sexo não é o objetivo desses devotees.

Entre tantos rótulos, vale à pena ressaltar que em alguns países são considerados Devotos ou Devotees quem sente atração por amputados e Admiradores àqueles que estendem a atração para outras deficiências dentro de suas hierarquias pessoais.

Sendo assim, o caleidoscópio do devoteísmo nos permite descobrir diversas cores, formatos e dimensões dentro da complexidade humana. Devotees e admiradores podem pincelar de características únicas a atração por deficientes caminhando pelo vasto campo da sexualidade, ainda que, o sexo a dois possa não existir como no voyerismo ou no “cuidar”.

Regina

domingo, 3 de junho de 2012

Na Periferia do Devoteísmo...






Há algum tempo venho observando o surgimento de pessoas em nosso Universo que em uma análise mais profunda não se encaixariam nos dois segmentos que compõem a trilha devotee/ deficiente. São pessoas sem traços do devoteísmo e sem deficiências aparentes.
Homens e mulheres que ao presenciarem o frêmito que envolve a atração por corpos diferenciados - por ações de vírus, doenças ou traumas - boquiabertos ancoram suas presenças entre nós.

Poderiam me dizer que se tais pessoas chegaram até aqui são devotees em busca de contato, ainda que inconscientemente. Seriam se aqui não estabelecessem domicílio por outros meios e por outros motivos.

Lembro-me de vários casos onde esse contato ocorreu por fatores diversos. Elencar todos seria leviano, pois não gostaria de citar pessoas ou nomes. Mas para exemplificar falemos de fakes, alguns deles apareceram entre nós atraídos até mesmo pelos nossos avatares. Leem as comunidades, nos leem e devagar vão se posicionando aqui e ali.

De início se surpreendem, duvidando que possa haver uma atração genuína por deficientes sem que esteja contaminada por outros fatores. É notória essa incredulidade quando passam a exercer nas comunidades o papel de superiores ou de uma condescendência preconceituosa tanto com devotees quanto com deficientes.


Em geral vêem as deficientes como mulheres sem atrativos e sem a periculosidade que uma rival, uma concorrente possa ter. Passam então ao assédio mais aberto aos devotees, sem aceitar que um homem possa desejar uma mulher não convencional conjecturando que ali está um homem de bem, um homem problemático que precisa ser salvo do dragão do seu próprio fetiche.

Ledo engano. Homens de bem, podem ser, como podem ser homens do mal, como podem ser homens que carregam o bem e o mal, muito mais provável, claro. Problemáticos? Alguns são. Mas não como essas pessoas pensam, não existe ali um fator preponderante a moldar o devoteísmo. Não existe a escolha por deficientes por serem menos ou mais atraentes, menos ou mais potentes. Existe a atração e como ela responde ao meio, ao caráter e aos atos desses homens.

O quê me chama a atenção nesses casos periféricos ao devoteísmo é a invisibilidade a que remetem as/os deficientes. A atenção não está voltada a nós, mas aos devotees. Ao serem indagadas respondem com evasivas, algumas simulam serem devotas sem sequer ter contato com deficientes ou travar uma conversa via comunidade.
O jargão subliminar é quase sempre o mesmo: “Estou aqui, quero ser vista! Esqueçam as deficientes".
Outro engano, outro tropeço.Não somos um grupo fechado às pessoas não-deficientes e não-devotees, mas a experiência demonstra em muitos casos que os periféricos são pouco aceitos em nosso Universo pelo preconceito e pela desmedida tentativa de polarizarem o devoteísmo entre inferioridade dos deficientes e superioridade dos devotees. Sendo o primeiro grupo desconsiderado e o segundo o alvo de investidas amorosas.
Tendo essas investidas quase sempre desprezadas, tais pessoas passam então a fazer parte da periferia, passam a habitar o limiar entre nosso Universo e o ostracismo.

Ostracismo esse combatido com redes e mais redes de conversações, de informações e às vezes de manipulações.
Para não pecar pelo excesso de críticas a essas pessoas, vale ressaltar que também entre nós existe certa discriminação entre deficientes. Pois se, entre aqueles que não são deficientes a idéia da atração por um corpo disforme causa espanto e incredulidade, entre alguns deficientes paira a falsa impressão que uma deficiente com seqüelas mais graves, com amputações mais severas não é ou não será atraente aos olhos de um devotee.
E nesse ponto, tanto os periféricos quanto as estrelinhas do devoteísmo compartilham do mesmo engano. Para um devotee, deficiente é deficiente. Para os devotos de amputadas, as amputações que lhes atraem são extremamente excitantes assim como para os admiradores, as deficiências variadas.
Se existe algum grau de atração é particular ou pessoal, não por serem mais ou menos deficientes.

Voltando à periferia... Impossibilitadas de enxergarem o óbvio, de assimilarem o miolo do devoteísmo, tais pessoas condenam-se a viverem de vãs esperanças e de atenções secundárias, não por não serem deficientes ou devotees, mas por não aceitarem a essência do devoteísmo. O glamour que acreditam pautar nosso Universo nada mais é do que homens e mulheres sendo exatamente quem e o quê são, ao menos aqui virtualmente. Já fora da virtualidade, esses fãs não conseguem se proliferar mas refazem os mesmos passos, redobrando seus esforços em salvarem seus objetos de desejo, quando na verdade, condenados estão todos eles a viverem na periferia do Devoteísmo.

É isso...

Regina