sexta-feira, 6 de julho de 2018

Dos Quereres e Divergências...

Durante muito tempo e durante muitas postagens debatemos o devoteísmo e o mostramos como uma parafilia. Eu diria que de maneira exaustiva e até cansativa. Mas infelizmente sempre haverá novos deficientes e cedo ou tarde a curiosidade será despertada para o tema. Espero que de alguma forma tanto meus artigos quanto de outras pessoas possam ajudar a compreender esse fetiche.

Pois bem, se num extremo ou de um lado temos os devotees, do outro não necessariamente temos o deficiente, mas com certeza temos a deficiência. Qual a diferença? Toda.
Talvez esteja nesse ponto a dificuldade de entendimento dos dois pólos. Ao contrário de outras parafilias não há uma procura por devotees. Quando descobertos, há uma boa percentagem que os rejeite com estranhamento. A deficiência faz-se presente, mas não o deficiente. E deficiências não respondem por si mesmas.

Não há como condenar ou cobrar atitudes que não vão de encontro aos desejos dos devotees, sejam eles quais forem.  

Exemplificando: No BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão e Masoquismo), há uma interação entre os desejos e há uma procura de um pelo outro. Vai bem além de uma consensualidade. Há um reconhecimento dos pares que podem até ser impares. Mas há. Superficialmente falando, há quem domine e quem queira ser dominado e toda uma prática dentro desse contexto.

No devoteísmo não, no devoteísmo é necessário percorrer um caminho tanto de um lado quanto de outro. Tanto devotees quanto deficientes necessitam  de um algo mais se quiserem vivenciar essa experiência a dois... Pois bem sabemos que ser deficiente não é algo que as pessoas queiram, salvo wannabes.  Portanto não somos deficiente para satisfazer um fetiche pessoal e nem um fetiche dos devotees. E seria bom que adeptos do devoteísmo assimilassem esse diferencial.  O assunto é tão vasto que poderia me alongar ...

Porém, por enquanto vou ficando por aqui... Só acrescento que sim, é possível uma convergência entre devotees e deficientes, desde que além da consensualidade exista um querer ir além...

domingo, 20 de maio de 2018

Das escolhas...



No texto anterior abordei o limite entre Parafilia e Transtorno Parafílico. Parece-me que não me fiz clara e em debate no facebook fui questionada quanto ao meu posicionamento.
Pois bem,  há algum tempo as parafilias deixaram de ser vistas como patologias, parafilias são formas paralelas e incomuns de exercer a sexualidade. 

Já o Transtorno Parafílico, como disse anteriormente, é considerado uma patologia pois compromete a sexualidade e não há uma troca, o parceiro, quando existe é considerado como um objeto.

Enfim, qual o meu posicionamento quanto ao devoteísmo? O mesmo de sempre. Minha abordagem nesse e no texto anterior foi o devotee, foi o devoteísmo e não o deficiente. Há devotees que transitam dentro das parafilias e outros dentro dos transtornos parafílicos. Quanto aos deficientes, esses, só a esses, cabe a decisão de aceitarem ou não, um contato com devotees e como pontuar essa decisão. E em qualquer que seja a opção, cabe à ela, o respeito de quem está de fora. Pensar diferente seria acoplar à deficiência um vitimismo e negar o livre arbítrio dentro e fora desse contexto. Deixando claro que aqui estamos nos referindo a deficientes físicos e não deficientes intelectuais. 

O importante são as informações, o quê cada um faz com essas informações é pessoal.

É isso..

terça-feira, 1 de maio de 2018

Parafilia e Transtorno Parafílico


Um dos tabus ao se debater o devoteísmo é compará-lo à pedofilia. E tanto deficientes quanto devotees já se colocam na defensiva ou no ataque na alusão dessa comparação.
Como já foi postado no blog, devoteísmo é um fetiche e um fetiche é uma parafilia. Já a pedofilia segue num crescendo Parafilia/Transtorno Parafílico.

O quê assemelha essas duas preferências sexuais é a forma como são exercidas  e o próprio conceito de parafilia, ou seja, uma atração à margem do que é comum.

No entanto é preciso deixar claro que o devoteísmo embora esteja à margem do que a sociedade considera normal, comum ou usual,  pode ser vivenciado sem causar danos ao próprio devotee ou ao deficiente. Já a pedofilia, não.  Pedofilia é crime, portanto fica explícito o dano.
Nesse ponto entramos no " Transtorno Parafílico" , esse quando caracterizado indica uma patologia.

Dentro do devoteísmo é possível perceber observando seus adeptos que alguns estão na linha limite entre parafilia e transtorno parafílico, são aqueles que demonstram não ter qualquer resquício de visão além da deficiência, não medem seus atos e não medram-se ao buscar satisfação dos seus desejos. O deficiente não existe enquanto pessoa, apenas como  meio de atingir o objetivo do devotee. Objetivo esse que pode diferir de devotee para devotee de acordo com suas preferências. Uns apreciam amputadas, outros cadeirantes por pólio ou traumas, há quem sinta-se atraído pelo claudicar, enfim, tudo que já foi postado e debatido aqui e fora do blog. 

Não cabe a nós deficientes rotularmos o devoteísmo como uma patologia, patologia seria se não houvesse em seu contexto características de personalidades, vivências e experiências diversas. Mas cabe a nós deficientes ficarmos atentos a comportamentos excessivos, perniciosos, invasivos e abusivos. Assim como cabe aos próprios devotees buscarem diferenciarem-se uns dos outros para que não caiam na mesma vala comum dos pedófilos ou dos transtornos parafílicos...

É isso...

domingo, 16 de agosto de 2015

Redundantemente, Devotees...


Recentemente me pediram para que escrevesse sobre o devoteísmo e os dias atuais, mais precisamente o devoteísmo e o facebook. E se não me falham as letras e memória, creio que já escrevi algo a respeito...
O facebook em si é um rede social paradoxa, ao mesmo tempo que aproxima as pessoas também afasta, se por um lado oferece privacidade por outro escancara nossas faces.
Bom, mas não quero tergiversar.

Pelo pouco que me chegou e observei, creio que posso fazer algumas considerações.
Alguns deficientes não têm idéia do que seja o devoteísmo. Pois bem, então vou repetir: Devoteísmo é uma parafilia. Parafilia são atrações sexuais paralelas ao que se considera comum, usual. Prefiro não usar o termo "normal". Normal é excludente, normal é limitante. Enfim... Outros exemplos de parafilia: Voyeurismo, Sadomasoquismo, Podolatria, etc... A lista é grande.

Mas qual a essência da atração de um devotee: A deficiência. Quando digo deficiência e não deficientes, faço consciente que a deficiência para um devotee vem antes de qualquer outro atributo que possa ter a pessoa deficiente. E nesse ponto haverá um burburinho, alguns deficientes achando isso o máximo e outros sentindo verdadeira ojeriza. E os devotees o que pensam dessa afirmação? A maioria alega ter uma atração como qualquer outra, fosse por loiras, morenas... Mas isso não é verdade. Parafilias são atrações exercidas além da pessoa, são atrações por um determinado contexto, condição, objeto. Na parafilia existe um deslocamento da atração para um agente desencadeador. No devoteísmo, a deficiência é esse agente.

Por isso veremos alguns devotees homens procurando tanto por mulheres como por homens deficientes, ou seja, não são necessariamente homossexuais, mas comungam de uma atração tão forte pela deficiência que o gênero da pessoa fica em segundo plano.

E, sim, existem devotees homossexuais. 

Entretanto é necessário explicar que... Nem sempre essa atração é consumada com sexo. Muitas vezes o prazer está em observar, fazer parte da vida do deficiente, ter acesso às suas dificuldades e ao seu universo onde a deficiência é o centro. 

Todos temos consciência que os relacionamentos e relações tiveram mudanças desde o início da internete e acredito que outras tantas mudanças com o aparecimento das redes sociais. Para deficientes e devotees não foi diferente.

Não quero me alongar, esse ponto daria um outro texto que pretendo esmiuçar, mas não hoje. Hoje me propus apenas arranhar o momento atual. Com o surgimento do facebook e sua quase unanime aceitação e procura, abriram-se janelas e mais janelas para todo e qualquer tipo de pessoa. Com a deficiência e o devoteísmo obviamente ocorreu o mesmo. Por isso vêmos e veremos em grupos, em páginas, em perfis de deficientes, muito devotees. E nem sempre usando uma imagem que corresponda ao que são e ao que querem. É uma regra? Não. Mas também não vejo como exceção. É comum, bem comum.

Como alguns deles têm se comportado?

Bem, isso fica para um próximo texto...


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Crime e Castigo...

Estranho reabrir o blog. Estranho voltar a esse espaço.  
Alguns textos  sequer me lembrava... Enfim...

Há dias de poesias, a maioria deles, mas há dias que espinhos só são cuspidos através de palavras em prosa. Confesso que meus pensamentos estão  desorganizados mas farei um esforço para seguir uma linha de raciocínio clara  e objetiva no decorrer desse texto.

Quando iniciei por esse caminho sinuoso dentro do universo dos desejos tortos as informações encontradas dentro e fora da net eram mínimas. Nem deficientes e nem devotees sabiam ao certo como proceder, como agir além do flerte inicial. Quando digo flerte, me refiro aos debates, às comunidades, aos contatos. Flerte para o embate ou para enlace. Pessoas dividiram-se como em partidos políticos. Uns defendiam A outros defendiam B. Teorias e experiências foram exploradas. Consenso?  Só entre os filiados a esse ou aquele segmento. Infelizmente.
Houve progressos? Houve, o devoteísmo já não é mais um tema desconhecido. Basta acessar sites de pesquisas ou o  facebook e encontraremos informações. 

Mas, o que me surpreende, e surpreende negativamente é ver entre devotees e não-devotees  a necessidade de negar qualquer elo que tenham tido ou têm ainda com esse universo  ou simplesmente com deficientes. Seria mais palatável e compreensível se essa oposição a qualquer fato que vincule-os a esse contexto adviesse de compromissos, relações afetivas ou sexuais assumidas simultaneamente com deficientes e com não-deficientes.
Não é de direito de ninguém invadir a privacidade alheia e muito menos os desejos alheios. Entendo perfeitamente essa premissa. Mas não vejo porquê medo, medo não, pavor, fobia de algumas pessoas serem vinculadas a nós,  após terem por aqui transitado.
O medo muitas vezes e muitas vezes nos lembra covardia. Não trata-se em alguns casos simplesmente de privacidade ou discrição. Não, é covardia, é vergonha.

Se por um lado temos a covardia, a vergonha, temos do outro nós deficientes. O que há de tão grave em relacionar-se, em sentir desejo por deficientes que possa ser denunciado? Denúncia, lembra-me crime. Crime, lembra-me castigo. Castigo pede perdão. Perdão? Por que? Por acaso somos nós deficientes erros estáticos ou ambulantes a levar à vergonha, ao arrependimento e à punição?
Infelizmente para algumas pessoas somos uma mancha em seus currículos. E acreditem, farão de tudo para que não maculemos suas trajetórias "limpas" perante ao que de fato valorizam, sejam pessoas, carreiras, familias, cargos.

Recentemente após a " denúncia"  da existência desse povo estranho, esquisito, maluco, que conhecemos por devotees, uma moça esteve assiduamente em nosso encalço. Moça essa que conheceria um homem, homem esse devotee. E obviamente, ela não é deficiente e não sabia das preferências do seu eleito. Moça essa que  nos deu a honra e a glória de alguns comentários no blog e em perfis meus e de outros. Perfis e blogs gentilmente cedido por pessoas com alto grau de benevolência e boa vontade.  Não, não estou acusando A ou B, não sou ingênua a esse ponto. Não creio na responsabilidade de uma única pessoa, seja quem for. 
E nem é esse o ponto. A mim tanto faz quem disse ou fez isso ou aquilo. 

O que me causa um enorme espanto é  realmente o medo que sentiram uns e outros diante da descoberta da moça. O que me causa espanto é que ao se fazer ao que chamam " denúncia" já  encaminham com o devoteísmo  e com deficientes o preconceito e a discriminação. E ao invés dos denunciados e das pessoas envolvidas nessa trama ridícula  enfrentarem  o bicho papão de frente ( a moça ), resolveram armar um circo, trocar  acusações,  chantagearem-se e sabe-se lá mais o quê.

Patético. Como diria um velho conhecido. 

O resultado da pantomima? A exposição de um velho e fétido câncer: "A importância do que eu quero parecer ser e não do que eu realmente sou."  E sinceramente, acho muito pior do que qualquer preconceito. Pois preconceito pode ser erradicado através de informações. Nesse caso há conhecimento, há experiências tanto pessoais quanto em debates dentro do nosso universo para que aleguem qualquer desculpa em nome da covardia.

É isso...

Quanto a mim, além do meu já conhecido desprezo por algumas manifestações e manifestantes somo o mesmo desprezo à referida moça,  a chantageados e chantageadores. Algozes e vítimas que trocam de papéis conforme suas necessidades fugindo de si mesmos e não de castigos.



sábado, 20 de setembro de 2014

O Velho Devoteísmo e o Mar... Das Fantasias, das Ilusões...



Quando pensei nesse texto, pensei em dar o título de O Velho Jason e o Mar do Devoteísmo.  Mas seria ainda que inversamente um presente para Jason. Para quem não sabe, Jason é um devotee bem conhecido em nosso universo. Mas, não, ele não merece tanto.

Há algumas semanas, corrigindo uma falha minha, tive a oportunidade de ler O Velho e o Mar de Ernest Hemingway. Bem se diz que quando escrevemos um livro, um texto, um poema, a partir do momento que outros olhos os leem não são mais nossos, não são nossas as únicas imagens e impressões que eles passam. Nasce assim, entre o escritor e suas escritas, uma nova entidade moldada por uma outra pessoa, o leitor.

Ao término do Velho e o Mar, veio-me a sensação de ser o próprio peixe perdido em infinitas águas salgadas. Perdido e posteriormente preso, morto e vilipendiado aos poucos.

Do começo ao fim do livro, torci para que o pobre peixe se livrasse do intento do velho pescador. Não somente de pescá-lo, mas de ostentá-lo. Pensei que como desfecho a consciência e o respeito falariam mais alto e o bom Santiago, o pescador, libertaria sua presa, seu peixe. Mas não estaria de acordo com a natureza humana. Não caberia ao escritor mudá-la, bem sei.

Seguiu o pescador sob sol e lua, tramando sua vitória, abatendo a criatura desejada e atrelando-a ao seu barco para conduzi-la ao que seria o ápice da sua vitória e ostentá-la perante sua comunidade e amigos. 

E a que preço Santiago conduziu o peixe ao seu reduto? A que preço Jason e outros devotees vêm alimentando seu devoteísmo? Será mesmo que é tudo em nome do devoteísmo?  Será mesmo que é tudo em nome de um objetivo, de um desejo? Ou seria a velha e conhecida vaidade?

Passamos tanto tempo em mares adversos, em mares inimigos e não percebemos que não são os mares, não são as adversidades, não são aqueles que às vezes erroneamente consideramos nossos inimigos os responsáveis por nossos erros. Somos nós mesmos.

Não havia entre pescador e pesca, pescador e mar, pescador e peixe nenhuma inimizade, até que a linha limite fosse  manipulada e ultrapassada. Ainda que o pescador tenha se ferido, ainda que tenha passado fome e sede, ainda que admirasse sua presa, o peixe, ainda assim em nenhum momento considerou a hipótese de libertar-se do fardo imposto por si mesmo.

E eu pergunto a Jason: Vale a pena ter atrelado a você um peixe que vem sendo arrastado, esfarelado, mordido, vilipendiado? Vale a pena ter presa a você, uma situação que o desgasta, o testa, coloca em dúvida seu caráter e  desconstrói seus ideais enquanto socialista para legitimar seu devoteísmo? 

Se Jason não leu o livro, acho que não. Seria bom ler. Ao fim do romance, como toda relação doentia, como toda relação unilateral onde um sobrepõe-se ao outro, onde um mastiga e engole o espaço do outro o que resta da criatura caçada, pescada, vilipendiada nesse processo, é um esqueleto, que não servirá nem para alimentar seu algoz e nem sua vaidade. Não haverá o que comemorar. Pois o viço, o brilho, a identidade, a essência desse peixe se perderá no mar antes mesmo que possa registrar e ostentar sua vitória.


segunda-feira, 14 de julho de 2014

Do orkut...


Bom,  vamos aos trabalhos...

Tanto tempo sem escrever sobre devoteísmo deixa-me um tanto letárgica para a construção de um texto. Mas enfim... Hoje policiando-me um pouco mais, venho cumprir  essa tarefa dada por Beleza Rara, nossa companheira de jornada. Ou resgatar mais essa dívida antes que o tempo passe e não seja possível fazê-lo.

Há dias, acredito eu, todos os usuários do orkut receberam uma notificação de sua extinção em setembro. Aqueles que me acompanham desde tempos remotos, desde o Ciadef, grupos do yahoo e outros sites já idos, sabem a importância que teve o orkut no processo de reconhecimento do devoteísmo pelos deficientes, pessoas interessadas, simpatizantes e até mesmo curiosos.

Foi no orkut, em suas comunidades que travamos nossos melhores e esclarecedores debates. E de lá - orkut- para cá, no blog,  trago algumas de minhas impressões e não diria conclusões, já que o devoteísmo se em uma primeira análise é uma parafilia  em um olhar mais profundo nos presenteia com inúmeras nuances para que seja engessado  a esse ou àquele conceito.

Não apenas eu e aqueles que participavam de minha comunidade tiveram acesso à informações, troca de vivências e olhares entre deficientes e devotees, outras pessoas também com seus próprios espaços e com seus debates e textos tiveram oportunidade de adentrar nesse universo através do orkut. 

Além de mim essas mesmas pessoas estenderam-se ao facebook formando grupos e páginas.

Mas, qual a visão do devoteísmo hoje? Qual é situação atual do devoteísmo dentro do facebook? 

Sinceramente, eu não saberia dizer com exatidão o quadro apresentado. Mas me arrisco a dizer que quanto aos debates é nulo, oco. Quanto à convivência entre deficientes e devotees vejo um panorama raso. Muitas adesões de devotees tantos nos grupos voltados  à deficiência quanto nos perfis  dos deficientes. E páro por aqui. Não cabe a mim opinar o que ocorre nesses contatos.

Seria necessário um  mergulho mais fundo e mais focado para passar minhas impressões.

Hoje,  minhas palavras  e velas direcionam-se e queimam rumo ao desencarnar do orkut e de nossa moribunda comunidade. E deixo aqui o espaço aberto às sugestões  sobre o que fazer com alguns textos que não são meus  e agonizam entre o postar e o não postar. 

Fosse, Alexandre o grande a escrever, provavelmente usaria de sua peculiar ironia, teríamos uma Atlantida, uma civilização soterrada ou  o encaminhamento final dos deuses ao Olimpo com uma cerimônia sem pompas e sem circunstâncias, sem carpideiras, sem flores, sem choradeiras...  Teríamos também quem sangrasse de vez o pobre coração de Beleza Rara, que por sinal, até o começo desse texto não voltou ao facebook, segundo ela excluiria-se e excluiu-se temporariamente por problemas pessoais que não cabe a mim revelar, claro.

Mas como sou eu a escrever esse quase epitáfio ao espaço que ocupamos no orkut, termino essas linhas agradecendo a todos, mortos ou vivos, a contribuição dada em prol dos debates.  Entre tapas e beijos não salvaram-se todos... C'est la vie.

Regina

 

quarta-feira, 19 de março de 2014

Da Mediocridade...


Antes de escrever esse texto fiz uma mea culpa, não há como dissecar meus pensamentos sem encontrar neles olhos a me apontarem seus dedos e dizendo-me que não sou tão diferente. Todos nós temos nossa porcentagem de mediocridade, todos nós temos uma imagem projetada e dela muitas vezes não abrimos mão. Infelizmente. Mas mesmo assim, precisamos de um mínimo de ética e respeito em nossos contatos.

Acredito que alguns que me leem saibam da existência de um outro perfil meu, um outro dedicado à poesias e amigos poetas e ligados a blogs de literatura. Perfil esse onde sou bem mais ativa e  que mantenho restrito, longe desse Universo. Por quê? Questão de privacidade poderia eu responder. Mas não apenas isso. Não quero lá ser notada por minhas amputações, pela condição de ser deficiente.  Prefiro que minhas letras tenham o mesmo julgamento que tantas outras, longe bem longe de qualquer característica pessoal minha.

E tantas e tantas vezes me pergunto se muitos dos meus amigos poetas me veriam da mesma forma como veem se soubessem da minha deficiência, acredito que não. Nem os homens e nem as mulheres. Não, não procuro lá qualquer envolvimento, pelo contrário, fujo deles. Mas não há como não levantar hipóteses.  E não há como não pressupor a resposta.

Não me lembro quando foi que aceitei o pedido de amizade de um conhecido de conhecidos. Amigos em comum, enfim. Nada no perfil indicava que fosse fake ou recém construído. Só mais uma pessoa com alguns interesses e gostos em comum. Fotos pessoais, amigos pessoais, visões pessoais e para minha surpresa hoje, extremamente politizado e embasado em suas posições. Nada lembrava um dos devotees que por anos esteve nas comunidades ou grupos. Mas é um deles. A vaidade é um pecado e tanto... Com o tempo fui percebendo nele palavras dúbias, expressões dúbias ao comentar minhas postagens. Não, ele não se traiu, simplesmente deixou-se revelar, por vaidade.

Mas se por um lado me surpreendi com a face real desse devotee por outro me decepcionei ao me conscientizar que para tantas pessoas a mediocridade fala mais alto. Dentro do contexto do seu perfil, dentro dessa personalidade que poderia ser atraente dentro do nosso Universo, mas nunca foi, por apenas mostrar seu interesse em cotos, em um troféu, no caso essa que aqui escreve, dentro dessa personalidade há a mediocridade tatuada. Há o que todos querem, há o senso comum, convencional como estampa. Mulheres e mais mulhere loiras, morenas, simétricas, amigos, familiares retos, nada de torto existe lá, com exceção de mim. E eu me pergunto, seria procurada se não tivesse uma certa projeção entre os poetas? Seria procurada se lá assumisse minha deficiência?

Acho que não.

Assim como tenho certeza que para pessoas como esse devotee o importante é e será sempre a mediocridade, é e será sempre a superficialidade, a imagem, a aparência. Jamais uma pessoa que prima em seus contatos passar a imagem de um homem enquadrado nos moldes de olhos alheios,  terá coragem de assumir uma mulher deficiente, jamais terá coragem de remar contra a maré ainda que caminhe pelo socialismo e abrace idéias da esquerda ou dos excluídos como ele mesmo prega nos grupos em que o vi atuando.

Interessante como a mediocridade leva ao nivelamento, castra e reduz com suas formas, com seu vocabulário, com suas opções e preferências sexuais pré-estabelecidas e até mesmo com o poder aquisitivo.  Engraçado como preocupam-se em mostrarem seus bens materiais, seus carros, suas posses, suas mulheres convencionais dentro do modelo aprovado por papai e mamãe.

Medíocres. Sejam alguns homens devotees ou não, de direita ou de esquerda, conseguem em sua covardia serem iguais e medíocres ainda que acreditem e afirmem que não.

E eu em minha mediocridade ainda penso que nós mulheres sejamos deficientes ou não, temos o direito e a obrigação de nos respeitarmos dizendo "não" ao abuso seja ele qual for. Tanto faz se o abuso vier de uma procura mal intencionada em um perfil de uma rede social ou um abuso de pensarem que somos e merecemos menos, muito menos do que realmente merecemos e  somos.

Eu

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A hora e a vez dos Erotomaníacos...



Ao iniciar esse texto, ou antes mesmo de iniciá-lo, pensei qual abordagem faria e em que estaria relacionado seu contexto com o nosso Universo. Já que  minha premissa aqui é a relação: Deficiente e os outros. Por algum tempo ainda acreditei ser outra, a premissa: Deficiente/devotee. Hoje sei que não. Vejo e observo que com imãs atraímos diversas outras vertentes não somente o devoteísmo clássico. 

E volto a repetir a escolha de acolher tantos desejos em um blog/página  denominado Universo dos Desejos Tortos não poderia ser melhor. 

Pois bem, por mais que alguns considerem a mim e àqueles que por um motivo ou outro fazem parte desses espaços, fakes, anônimos, heterônimos, etc, etc e desqualificados para os debates e para ao que nos propusemos que foi sempre pensar, informar e colocar em letras observações, experiências e vivências enquanto deficientes, devotees, simpatizantes, afins, enfim... É com certa surpresa que nos vejo enredados em tramas, em delirios e até surtos obsessivos por nossas imagens. Digo nossas, pois quem delira, quem trama, quem difama nos coloca entrelaçados.

O mais estranho de tudo isso é não ter com essas pessoas nenhum vínculo e nenhum contato. Nada. Se ,segundo eles, sou diversos heterônimos, eles pra mim, pra nós são completos anônimos.
Isso me levou a pensar nos erotomaníacos que são pessoas que nutrem por seus ídolos sentimentos conflituosos, passeando por amor, paixão, admiração e raiva e ódio quando rejeitados. Não sou uma rainha, claro que não, nem sou superior, nem àqueles que fazem parte do meu círculo pessoal e virtual são. Portanto causa-me estranheza deparar-me com atitudes que lembram a erotomania.

Por que me lembrou a erotomania ou Síndrome de Clèrambault? Por alguns indícios. 
O principal e mais forte pra mim é o fato de realmente não ter contato com essas pessoas, não procurá-las, não tomar conhecimento de suas vidas, não ter nenhum vínculo além  de um momento ou outro termos nos esbarrado em nosso Universo.  Mas embora neguem e negam, nos procuram em privado com mensagens ora de admiração, ora de raiva. Conforme talvez o estado de espírito que se encontrem. Não costumo responder quando isso acontece. Pois antevejo uma manipulação e antevejo uma anormalidade em tais pessoas.

Pessoas essas que interpretam qualquer letra, palavra ou postagem como se fosse direcionada à elas. Qualquer movimento meu, nosso, é interpretado como forma de contato. Deliram, nunca foi, nunca é. 
Pode ser um defeito meu, mas sou muito e muito reservada, poucos, muito poucos têm acesso a minha essência, nem mesmo àqueles que convivem comigo. Por tanto quando escrevo, quando crio, quando me inspiro é algo solitário. Óbvio que capto energias aqui e ali assim como observo pessoas e comportamentos. Mas jamais ultrapasso o limite da privacidade de quem quer que seja quando teço meus textos. Tenho comigo não citar nomes. Nem mesmo o meu. E, no entanto, algumas pessoas sentem-se pessoalmente atingidas, pessoalmente abordadas, pessoalmente conectadas comigo e com outras pessoas. Deliram. Não estão.

Os estágios da eretomania descritos na literatura são, esperança, despeito e rancor. Creio, eu, que ainda essas pessoas estão a transitar entre esses estágios, ainda nutrem esperança de que seus delírios de manterem algum tipo de relação ou relacionamento ou contato comigo ou com outros de meu grupo, blog ou página,   sejam reais. O mais preocupante pra mim é perceber que estão prestes a perder o fio que as liga à realidade quando num ato extremo se travestem de um de nós para ter atenção por mais que aleguem ser uma brincadeira ou qualquer outra coisa.

Bom, como disse no início do meu texto, como relacionar tais comportamentos com nosso Universo? Simples. Não deixa de ser mais um desejo. Um Desejo Torto... É isso.

Eu.




sábado, 26 de outubro de 2013

Te - ra - to, o que? Teratofilia...



Quando iniciamos essa jornada pelas letras em busca de respostas e em buscas de dúvidas que nos dessem um caminho para que tateássemos pelos desejos que permeiam  nosso universo, fomos duramente criticados ao cunhar nosso blog de Desejos Tortos.  E, hoje, vejo que, não poderia ter feito melhor escolha. Se leio aqui e ali um e outro artigo, uma e outra pessoa dentro desse contexto deparo-me com novas descobertas, com novas nuances, que jamais encaixariam-se ao convencional. O convencional vem se perdendo, vem se tornando mediocre e pequeno. Não, não há aqui espaço para o comum.

Eu sei, me dirão que deficientes podem ser amados, podem exercer atração em outros sem necessariamente ser um desejo torto. Concordo, mas não é disso que trata-se a maioria de nossos textos. E nem nós somos comuns e convencionais. 

Enfim, hoje quero falar da Teratofilia... Te- ra - to,  o que? Filia... Sim, uma outra parafilia, até então para mim ainda desconhecida. Mas ao me ver diante desse fetiche foi como se algumas cortinas fossem retiradas e a névoa de um caso e outro fosse finalmente dissipada.
Nessas horas, sinto falta de alguns devotees nos debates, aqueles que estendiam sua atração ao diferente, ao bizarro, segundo nossas convenções, claro. Infelizmente, uns partiram, outros perderam o interesse. 

Bom, o que é afinal Teratofilia? 
É a atração por deformidades. A mais citada entre elas, como sempre, é a amputação. O que difere a Teratofilia do devoteísmo, ou o que diverge, é ser uma atração também por aquilo que muitos consideram monstruoso. E como não lembrar de Quasímodo e Esmeralda? A Bela  a Fera? Fiona e Shrek?

Embora no primeiro caso, Esmeralda não senti-se atraída por Quasímodo como homem, é evidente que Victor Hugo caminhou pelos extremos: Beleza e Monstruosidade. E nada teria chocado mais se ao fim do romance Esmeralda tivesse caído de amores por Quasímodo, não um amor fraternal, mas um o amor-carne. Um amor desejo. Não que eu pense que atrações  venham a desembocar em amor, não, jamais afirmaria isso como regra. Mas gosto de imaginar qual seria a reação dos leitores se Esmeralda nutrisse por Quasímodo a mesma atração de uma devotee por um deficiente. 

Já entre Bela e Fera, Fiona e Shrek, tivemos a oportunidade de tatear a  Teratofilia. Felizmente ousaram os escritores a inverter conceitos e costumes. Ainda que em conto de fadas...

Mas, deixando minhas divagações de lado, vamos a um ponto interessante em nosso Universo, um ponto até então obscuro. Sentiriam devotees atração por corpos mais ou menos disformes? Sentiriam devotees uma preferência por deformidades como escolioses, como sequelas que agravassem e desfigurassem rostos além de corpos? Não sei. Talvez não dentro do devoteísmo clássico, esse que nós pecamos ao dizer que nada mais é que atração por deficientes sem dele aceitar suas vertentes e nos chocarmos quando um e outro optar por contato com àquelas ou àqueles deficientes que apresentam deficiências que aos nossos olhos, não aos deles, sejam mais agressivas.

E então,  flagro-me a pensar que tanto no Devoteísmo quanto na Teratofilia há um misto de intolerância e condescendência com o que seus proprios conceitos não casam-se. Por isso, hei de preferir sempre e sempre falar de Desejos Tortos e abrir minha mente para o inusitado e para as surpresas que em linha reta jamais teria.

É isso...

Regina


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Era um novo Devoteísmo?




Há algum tempo afastada do nosso Universo e de suas facetas, eis que, estou de volta. Se há um ponto de partida, há em contrapartida sempre um ponto de retorno e volto...
E para minha surpresa, não vejo mudanças, não vejo evolução e não sinto sequer o oxigênio necessario para que os pulmões dos debates sobre devoteísmo respirem sem ataques súbitos de gases venenosos.
Ironicamente, porém, não é o que pregam hoje aqueles que se dizem os baluartes dos bons costumes, da moral, do comum e da malfadada hipocrisia dentro do devoteísmo. Hipocrisia, pois, aqueles que bradam, bradam às escondidas, bradam secretamente. Secretamente bradar? Que contra senso... 

Hoje, para esses estandartes, devoteísmo nada mais é do que meia dúzia de pessoas a se encontrarem em determinados locais, munidos de determinadas características e de determinados cabrestos.  Sim, cabrestos. Devotees passaram a ser nada mais, nada menos que pessoas limitadas por regras, por expressões e por um idioma. Idioma esse falado somente pelas matriarcas da malfadada hipocrisia... Não mais permitem que devotees tenham desejos carnais, não mais permitem que devotees expressem-se, não mais permitem que devotees existam se não seguirem suas bíblias, não mais permitem que devotees existam se não  mostrarem  suas fotos, suas identidades, quiçá se não ajoelharem-se e rezarem rosarios e mais rosarios de penitencias para expurgarem seus pecados por serem entre si diferentes...

Oras, isso é um absurdo e um total retrocesso. E eu me pergunto, aonde está a evolução? Numa seita secreta? Numa seita que exige rituais tacanhos de subserviência e demonstrações de um quociente de inteligência duvidoso? Qualquer pessoa um pouco mais informada, com um raciocínio independente consegue enxergar o perigo de seitas como esta. Seitas onde o lema é: "Se não pensa como nós, não é um de nós." Tudo bem, bem sabem que não sou uma pessoa religiosa...
Mas, seitas sobre Devoteísmo? Isso é quase um insulto. 
Devoteísmo não é religião, não é partido político, não é ideologia. Devoteísmo é parafilia e fetiche, repito e repito há anos.  
Devotees são pessoas das mais variadas características, nacionalidades, raças e preferências. 

Limitar o devoteísmo dentro de quatro paredes tendo como guardiãs mentes obsoletas é algo extremamente perigoso. Não, não há evolução,  há o risco sim de transformarem essa instigante atração num atração camuflada, morna e sem graça. Há o risco de uma caça às bruxas - e sempre as preferi às pseudo moralistas - enfim, há o risco de abortarem qualquer nuance de devoteísmo que não acasale com seus delirios de uma nova era. 
Era o quê mesmo? Ah, era devoteísmo, não é mais... Essa é a nova era?
Hoje fazem isso com devoteísmo, amanhã quem sabe comecem a determinar quem é deficiente e quem não é. Quem sabe tenham uma escala ou um teste onde as respostas jamais podem contradizer seu matriarcado.

Matriarcado esse, tão duvidoso... De um corpo de três cabeças, de uma só voz e de uma mesma máxima: Atacar Lola, atacar Libertino, atacar, atacar e... Claro, negar. Atacar para que dentro de suas mentes deixemos de ser o que somos, de representar o que representamos. Ou seja, um devoteísmo nu e cru. Tudo de acordo com a hipocrisia, essa sim, que praticam sem ética e moral alguma, ao contrario a exibem em atos e palavras quando negam esses ataques.

É, voltei, voltamos, mas a impressão que tenho é que voltamos no tempo e não no espaço. Voltamos   e encontramos um devoteísmo quase agonizante, quase castrado, quase aborto, sufocado e pedindo socorro... E, claro, respondemos: " Cá estamos".
 
A era? Não sei. Somos, não éramos.

Regina

quinta-feira, 11 de abril de 2013

A Doçura Perfeita de Vênus





Há um ditado antigo na Itália que diz: " Quem não dorme com um aleijado não conhece a perfeita doçura de Vênus".

Quando li essa frase, pensei; - Porra, Ale, alguém mais concorda contigo.

Há algo de único em dormir com uma deficiente. Dormi com muitas, sou réu confesso. Umas mais gostosinhas, outras nem tanto, mas todas me deram mais tesão e prazer do que qualquer outra mulher sem deficiência. Amputadas, pólio, lesadas. Não sou um caçador, sou de bem com a vida e com as mulheres. Gosto do encaixe, dormir de conchinha, acordar de madrugada e bolinar cotinhos, perninhas finas, pezinhos desiguais.

Mas existem deficientes que nunca vão saber o que é ter um devoto apreciando sua nudez, sem vergonha nenhuma de ter o corpo torto, assimétrico. Por que penso assim?
Porque sou devotee desde que vi minha primeira namorada, minha primeira deficiente, minha primeira transa. Gosto de deficientes porque são deficientes, porque despertam em mim um tesão do tamanho do meu ego, que não é nada pequeno rs.

Há deficientes que tudo botam areia, chamar de aleijada não pode. Passar a mão no cotinho não pode, fica peladinha na cadeira não pode, é uma encheção do cacete.

O encanto das deficientes para mim está nelas serem exatamente o que são, me deixando ser exatamente o que sou.
Esse papo de Devotees avante, Devotees deixem seus fakes, devotees deixem de gostar das nossas deformidades, olhem nossa alma, é broxante demais.

A doçura perfeita de Venus, a doçura das minhas aleijadinhas quando  dormem comigo é um manjar dos deuses, por isso devotos são minoria. Por isso me orgulho de ser diferente, de ter um desejo torto.

Ale

terça-feira, 19 de março de 2013

Tu te tornas responsável pelo que cativas?




A frase correta seria: " Tu te  tornas eternamente responsável pelo que cativas."

Embora seja uma frase de grande efeito do clássico da literatura, O Pequeno Príncipe de A. S. Exupery, não sei é possivel considerá-la como uma verdade absoluta.  
Acho, de um peso imenso, desonesto para ambas as partes, tanto para quem é cativado quanto quem cativa.
O que isso tem a ver com devoteísmo? 
Muito, assim como em qualquer outro relacionamento. 
Quando leio as tantas deficientes reclamando dos percalços do devoteísmo, vejo nas entrelinhas cobranças, há um preço pelo afeto que devotees despertaram. Há o preço incluso em cada relacionamento duradouro ou esporádico que se finda. 


E, em alguns casos há um preço maior e totalmente indevido já que podemos não somente em nosso universo como fora dele "cativar" inconscientemente ou quando muito sem a intenção de fazer do outro nosso cativo. Cativo por si só pode ter uma conotação forte, conotação de escravatura, conotação que incomoda a liberdade. O surpreendente nesse contexto é observar que quem se propõe a esse cativeiro exige do seu eleito ou eleita que seja por ele possuído e responsabilizado por seus atos. Buscando uma sintonia patológica sem que muitas vezes o outro sequer tenha vontade de estabelecer um vínculo entre eles. 
Quem dera fossem devaneios essas minhas observações, quem dera esses seres cativos se conscientizassem  da necessidade da reciprocidade nas relações afetivas, sexuais ou até mesmo de amizade. Na falta dessa conscientização, vitimizam-se, tornam-se algozes, tornam-se algumas vezes obsessores, cativos deles mesmos, cativos de um desejo não realizado. 


Sei bem quanto é complicado ser racional quando a emoção fala mais alto, quando o sentimento grita. Mas sei também que antes de ser eternamente cativo de alguém é necessario sermos cativos de nossa essência. 

No devoteísmo, todo o deslumbramento que em um determinado momento desperta nos deficientes -  no início, no meio ou no fim dessas descobertas -  muitas vezes me lembra essa frase.  Como moscas em um prato de mel algumas deficientes não conseguem  se deslisgar de quem as cativou. Mas em contrapartida o outro lado não quer e não vai se responsabilizar por quem cativou. Mais preocupante é observar não esse cativeiro voluntario  dedicado a esse ou aquele devotee ou deficiente, mas esse cativeiro voluntario a uma situação que em algumas vezes para o outro não existiu. Como exemplo cito aqui devotees focados em deficientes projetadas por seus fetiches, projeções essas que me soam como fuga. E deficientes focados ou focadas em devotees que por algum motivo despertaram atenção sem que tivessem esse intuito.


Acho, acredito,  que essa responsabilidade atribuída à frase cabe muito mais às relações de amizade, familiar, fraternal e principalmente recíprocas do que à escravidão de quem quer que seja que tenha sua libido despertada por nós ou despertado a nossa.


E como sempre temos os dois lados da moeda, a luz e a escuridão... O verso e o inverso... Não é raro presenciarmos "cativos" de seus desejos e não dos desejos do outro, tornaram-se pessoas vingativas buscando de todas as formas a evidência aos olhos de seus eleitos, pobre eleitos...

Pode ser que algumas pessoas desconheçam essa frase, mas quando leio uma coisa e outra é exatamente assim que se comportam, como se fossem escravas, como se estivessem presas, acomodadas, incapazes de desligarem de algo, de alguém que não é e não será nunca responsável por sua felicidade e nem de sua infelicidade. E assim vejo alguns devotees se comportarem e assim vejo algumas deficientes se comportarem.... 
Eles, os devotees, por capricho ou outro motivo,  e os/as deficientes por criarem expectativas infundadas. 

Só há um "eternamente"  enquanto dura, só há responsabilidade em um relacionamento afetivo se houver reciprocidade. Só há um relacionamento se houver desejos mútuos. 

Regina.

sábado, 5 de janeiro de 2013

O Joio e o Trigo...



Como introdução gostaria de citar o significado de joio de acordo com o dicionario de lingua portuguesa:

"Joio: s.m. Planta da família das gramíneas, de sementes tóxicas, comum nos prados e nas culturas, onde prejudica o crescimento dos cereais.
Fig. Coisa de má qualidade que se mistura às boas e as prejudica.
Separar o joio do trigo, separar os bons dos maus, o bem do mal."

Não há o que contestar, a necessidade de dizimar o joio para que evitemos a contaminação do trigo  é indiscutível. Literalmente, sim, apenas literalmente... Pois em metáfora bíblica, bem e mal não dividiriam o mesmo espaço, não seriam processados juntos. Com o risco do mal contaminar o que de bem houvesse. Mas penso eu,  o que haveria de ser mal e o que haveria de ser bem, o que haveria de ser humano e o que haveria de ser aos olhos de Deus, divino.

Sim, refiro-me aos homens, refiro-me à dualidade humana, refiro-me à natureza humana e suas inúmeras características.

Há pouco, observei entre os devotees, um deles manifestando-se preocupado em criar regras para que nós deficientes possamos colher apenas o trigo e não o joio. Ou seja a ideia do bom devoteísmo e do mau devoteísmo. E fiquei eu a pensar quanto isso pesa, quanto isso camufla e pinta de duas cores o Devoteísmo: Branco e Preto. Luz e escuridão.  Incrível como somos todos frutos do misticismo ou religiosidade ainda que neguemos.

Antes de qualquer aspecto ou característica a primícia do devoteísmo é a atração pela deficiência e isso é ponto pacífico. O desenvolvimento do devoteísmo assim como nossas personalidades é único. Haveremos de encontrar um aquarela dentro desse universo. Devotees de amputadas, devotees cuidadores, voyers, pretenders, wannabes, etc. E dentro de cada preferência e exercício do devoteísmo outras tantas cores estarão presentes.

O quê me preocupa é essa tendência de se transformar em guetos algumas características dentro de cada grupo como se outras não fizessem parte do devoteísmo. 
Não há o joio e o trigo, há sim pessoas diferentes no exercício de uma preferência ou exigência. Desconsiderar que alguns  devotees possam ser compulsivos, caçadores ou que façam do deficiente um objeto é mascarar e enganar a quem busca informações. 
Mais grave ainda é querer dar ao devoteísmo ares de amores incondicionais e boas intenções para com o deficiente.
Claro, que o ideal seria que devotees e deficientes vivessem harmoniosamente sem as tais más intenções de um lado ou de outro... Mas... Paro e penso. Isso não é humano. E somos, como somos demasiadamente humanos. Criar regras, jogar o que não gostamos pra debaixo de letras bonitas não fará bem nem aos devotees nem aos deficientes.
Pelo contrario. Estão a colocar deficientes em um patamar além, bem mais alto do que seres humanos comuns. Estão a colocar deficientes como incapazes de assimilar e trabalhar quaisquer que sejam os problemas afetivos, sexuais ou emocionais. É um caminho que levará realmente deficientes a isso, a uma incapacitação de saber conviver com decepçõs quando a frustração diante de alguém, devotee ou não, se fizer presente.

As diferenças existem.  As diferenças gostem ou não quem lê, quem convive, quem debate, quem vivencia a propria deficiência ou o devoteísmo não vão deixar de existir apenas porque é mais cômodo fechar os olhos para essa diversidade, humana, sempre humana. Lembrando ainda que estamos falando de parafilias, de fetiches onde o campo é  ainda mais amplo para que surjam ramificações comportamentais.

Ouso dizer que é desonesto atestar que só devotees "bem intencionados" ou "livres de conflitos" sejam devotees.  Desonesto para com eles para com nós deficientes. 
Da mesma terra que nasce o trigo, nasce o joio. A mesma chuva que bebe o trigo, bebe o joio. E assim é no devoteísmo, da mesma atração comungam todos os devotees, todos. 
Se há a necessidade de escolha entre um ou outro devotee, que seja sempre e sempre uma escolha individual do deficiente e não vinda de uma discriminação do que é ou não devoteísmo. Até porque, não acredito em escolhas sem que todas as opções sejam apresentadas.

Muito fala-se do bom e do mau devoteísmo, muito argumenta-se sobre as formas de agir dentro do devoteísmo e vejo cometerem sempre os mesmos erros. Esquecem-se tanto devotees quanto deficientes que o mundo não é cor de rosa, que o mundo não é da perfeição, da simetria ou das tais boas intenções. O mundo é o que é. Nos privar da realidade, das vertentes sejam quais forem é preconceito revestido de hipocrisia.

Joio e trigo, uma questão de olhos, uma questão de procura e resposta. Basta observar que homens deficientes, alguns, aceitam melhor sexo por sexo com mulheres devotees. E então seriam as mulheres devotees que buscam um envolvimento emocional o joio nessa equação?

Não há como conviver dentro de conceitos fechados sem esbarrar na intolerância. Não há como limitar o ser humano sem castrar o que realmente somos.

Que separem o joio do tripo, os deuses. Os seres perfeitos. Não, não nós que somos humanos, demasiadamente e deliciosamente humanos...

sábado, 20 de outubro de 2012

Elas, as Devotas....




Interessante como ultimamente existe um divisor entre mulheres devotees e homens devotees. Por isso no texto de hoje tento esmiuçar essas diferenças. Tento, pois é complicado dentro do devoteísmo atestar o que é uma característica pessoal ou uma característica geral entre devotees.  No entanto homens são homens e mulheres são mulheres. Não há como negar que por si só a diferença de gêneros  nos apresente referências diferentes,  visões diferentes, sensações diferentes diante de um fato, de uma experiência e aqui diante de uma atração.

É importante deixar claro, que assim como no devoteísmo masculino também no feminino temos várias vertentes e preferências. Nem todas as devotas partilham dos mesmos gostos, mas a maioria prefere polio cadeirante ao contrário dos devotees homens que em sua maioria prefere amputadas. Mas é óbvio que encontraremos devotas universais, de amputados, cuidadoras, etc.

O quê me chama a atenção em algumas devotas principalmente naquelas que não assumem seu devoteísmo é a insistência em correlacionar a atração que sentem ao amor incondicional. Lembro-me que já escrevi a respeito desse "amor incondicional", amor peso, amor cobrança, amor mulher maravilha. Fico a pensar se do outro lado desse amor não existe alguém a sentir-se tão miserável a ponto de achar que não seria capaz de atrair e de conquistar uma mulher se não fosse em nome desse amor incondicional que se de um prisma pode parecer maravilhoso por outro nos leva a acreditar que em hipótese alguma deficientes são capazes de atrair por atrair, despertar interesse e desejo por despertar. Amor incondicional é amar além de, apesar de, mesmo que, apesar de... Não é desejar e sentir prazer exatamente pelo que somos, deficientes.

Sendo o devoteísmo uma atração tão forte pelo universo da deficiência e por deficientes não é surpresa que venha a gerar conflitos e dúvidas tanto para devotees quanto para nós. O que ocorre no devoteísmo feminino é acentuar algumas características assim como nos homens.

Lembro-me de uma devota ainda na comunidade do orkut que relatou a intensidade do que sentia ao ver na época o namorado cadeirante esforçando-se para vencer barreiras diárias como o passar da cadeira para algum lugar ou até mesmo outras mais comuns, desencadeando segundo ela uma alquimia entre instinto maternal e sexual. Também uma outra no antigo Ciadef relatava  quão forte era sua excitação ao manter relações com deficientes. O quê para eles era dificuldade para ela era motivo de prazer. Assim como há devotas que negam ser a atração física  o miolo do fascínio que sentem por deficientes alegando ser antes de tudo a atração pela aura para não dizer alma do deficiente e há aquelas onde a fantasia e o que cerca o deficiente vem a ser mais atraente do que o proprio deficiente. Um dos relatos que mais me chamou a atenção foi justamente um que se pautava na fantasia, no voyerismo, pois relatava essa devota que mesmo tendo se casado com um deficiente sentia-se mais completa masturbando-se ao vê-lo de muletas e claudicando do que mantendo relações com ele.

Enfim, assim como no devoteísmo masculino teremos também diferenças no devoteísmo feminino.  Sei bem que ao relatar aqui algumas peculiaridades dessas mulheres, sim pois são antes de tudo mulheres, estarei colocando em dúvida o bendito amor incondicional que algumas alegam sentir, mas eu vejo essas peculiaridades envoltas na subjetividade feminina confundindo tanto deficientes homens como as proprias mulheres devotees. O que é um paradoxo pois em alguns casos homens deficientes procuram mulheres devotees como se fossem elas garotas de programa, basta no ponto de vista deles, ser devotee para que acatem seus desejos ou curiosidade. 

O ideal seria o equilibrio ainda que haja a atração sexual por deficientes por parte das devotas, mulheres tem a tendência de subjetivar seus desejos. O que acredito ser um erro é não encarar isso de frente, nao encarar a atração pelo corpo sequelado e o que o cerca em prol de um pseudo amor incondicional. É necessario  levar em consideração que para amar é preciso muito mais do que o gatilho de uma atração, nesse caso,  muito mais do que a deficiência de um e o devoteísmo do outro.

Embora eu não seja uma devotee e sim uma deficiente não descarto a idéia que um homem deficiente desperte em nós mulheres nossos instintos mais profundos. Sem esquecer que somos únicos e respondemos aos estímulos sejam quais forem de forma única mesmo dentro de um padrão comportamental.
Hoje o devoteísmo está às claras para quem quiser enxergá-lo, hoje as informações pululam entre os sites, hoje não há espaço e nem motivos para que tentemos mascarar essa atração, ainda que venha vestida - ou despida - para matar, de batom, perfume e salto alto.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Em tempos de Facebook...




Há tempos não escrevo um texto no blog, confesso que por falta de tempo para aqui estar. O interessante é que mesmo mantendo minhas letras em dia em outros sites sinto falta de escrever em nosso Universo. Tenho lido uma coisa e outra quando entro. As observações das deficentes ainda têm um ponto nevrálgico, ou seja, a infidelidade dentro do devoteísmo. Por outro lado temos devotees que ora se agridem ora juntam forças tentando provar que existem devotees fiéis e disposto a um relacionamento monogâmico.

Acredito que existam, ainda não presenciei tal fato, mas tais devotees devem existir. Gostaria de lembrá-los que a internete propicia uma interação maior e consequentemente um trânsito livre embora muitas vezes esse ir e vir seja feito por labirintos e entre névoas, ainda assim para àqueles que buscam “liberdade" sem dúvida via web esse transitar torna-se bastante convidativo. Em um tema tão controvertido como o devoteísmo por mais que insistam que não, esperar que sejamos diferente nesse mar de emails, orkuts, facebooks, sites de relacionamentos diversos é no mínimo utopia. Existe uma variedade muito grande de cores e sabores. Com o tempo, algumas amizades se fortalecem e outras se diluem. Portanto usemos de bom senso ao travarmos contato com esse ou aquele para não cairmos na vala comum dos desinformados.

 É fato que alguns devotees trouxeram esses costumes já de fora da net e fora da nossa atmosfera, mais um motivo para ter cuidado com as tais expectativas. A compulsão e a infidelidade não nasceram dentro da internete, mas dentro da internete encontraram um campo fértil. Em contra partida encontraram também deficientes, ou melhor, pessoas que podem trocar informações com maior facilidade a respeito de qualquer tema ou indivíduo do seu interesse. Gerando assim muitas vezes conflitos entre a liberdade e a privacidade.

Não há inocentes e culpados, há quase sempre uma diferença de foco e de desejo. Mas está claro que deficientes esperam bem mais, muito mais, do que a maioria dos devotees pode ou quer ceder. Mas não é algo inerente apenas ao nosso Universo, os costumes estão mundando, o comportamento humano vem mudando ao longo das últimas décadas. Cada vez mais ficam escassas as relações e a procura por relações estáveis.

E em nosso contexto essa escassez se agrava pela estatística de um número considerável de deficientes e um número não tão considerável de devotees favorecendo-os quando  compulsivos.
Os grupos, os sites, as comunidades hoje são muito mais usados para estabelecer contato entre as pessoas do que propriamente para debates. O que por um lado é ótimo, o medo do desconhecido esvai-se entre uma palavra e outra. A relativa invisibilidade propicia a liberdade de externar desejos contidos e críticas que talvez não chegassem a lugar algum ao menos são lidas.

Mas, quanto aos debates em si... Esses, sinto que vão perdendo espaço, vão cedendo lugar ao deslumbramento e muitas vezes desencantamento consecutivo e instantâneo  pela falta de tato de alguns ao reduzirem deficientes e devotees a meros pedaços de carne a satisfazerem carências e desejos. E, como nem sempre a carne crua é bem digerida, assim também algumas palavras e expressões ao invès de promoverem um entendimento melhor entre os interessados pode sim acarretar um distanciamento maior.

 Diante dessa realidade perdemos a oportunidade de conhecermos um devoteísmo sem máscaras quando com palavras coagimos e inibimos devotees que estão dispostos a um debate sério a se posicionarem honestamente e são raros, bem raros. Da mesma forma que inibimos e coagimos deficientes de colocarem suas dúvidas pelo medo de serem ridicularizadas quando tentam se posicionar sem serem meras respostas ao que anseiam devotees. E essa tal liberdade que tanto ansiamos ao fim restringe-se não a de expressão ou des escolha mas sim e muito  a adubar relações rasas e efêmeras e em nosso universo um grande e imenso rodízio às vezes se faz presente solidificando o devoteísmo compulsivo.  Sem que no entanto estejam cientes devotees e deficientes de que isso não é liberdade, é muito mais viver um devoteísmo fast food.

 Assim é, assim tem sido, grupos e mais grupos surgem no facebook desde àqueles voltados à postagens de fotos eróticas, fotos de nus mais explícitos, conversações mais apimentadas em chats a poucos grupos que buscam debates sobre a relação deficiente/devotees. Se tudo já foi dito, postado, revirado, infelizmente sequer é lido por alguns que simplesmente em nome da liberdade trilham ao que me parece um caminho inverso ao da escolha consciente alimentando inconscientemente a compulsão dentro do devoteísmo. Não digo infidelidade. Para ser fiel é necessario antes um compromisso, um pacto ainda que velado,  isso me parece ainda difícil de acontecer.

Eu sei, nada muito diferente do universo lá fora, mas aqui  há a singularidade de devoteísmo ser um fetiche e que algumas deficientes ainda não se deram conta disso. Por outro lado, alguns homens deficientes parecem se apegar somente ao termo fetiche ao abordar as meninas devotees sem considerar que possam ser diferentes entre si e que estejam buscando cada uma a sua propria historia amorosa ou não. Assim as expectativas muitas vezes seguem um caminho contrario quando lidamos não apenas com deficientes e devotees mas sim com as diferenças entre os sexos e as diferenças, ainda bem, também entre pessoas do mesmo sexo. Tudo isso em nome da liberdade de se postar, curtir, compartilhar, falar e agir sem a responsabilidade de enxergar o outro, como se o outro fosse apenas o reflexo dos seus desejos. Mas nem mesmo o espelho é totalmente fiel ao nos devolver nossas faces...

Regina

domingo, 9 de setembro de 2012

Das Dores e Delícias do Devoteísmo...




Há uma música que diz:
"Cada um sabe bem a delícia e a dor de ser o que é."

No auge dos debates tanto hoje quanto antigamente, houve e há uma tendência forte de colocarmos o devoteísmo em primeiro plano e nós deficientes como meros expectadores. Esperamos, esperamos e esperamos. Mas... Exatamente o quê?
Alguns ficam em suas janelas a jogar pedras, outros rosas. Outros abrem suas portas, outros trancam a casa. Mas indiferente, nenhum deficiente se mantem.

Sempre gosto de lembrar as primeiras deficientes que ousaram, que fincaram suas personalidades nesse caminho que temos trilhado. Tudo era tão mais complicado. Considero-as verdadeiras desbravadoras. Essas sim, merecem toda a admiração possível. Em tempo, não me incluo, se elas me lerem, saberão que à elas deixo minha homenagem.


Muitas coisas mudaram, mas ainda sinto que poucas, raras deficientes ousam dizer: "Sim, me envolvi com um devotee, e daí?" 

Em um tópico em nossa comunidade me indagaram se eu mesma me envolveria novamente com um devotee... E disso comentários e mais comentários a respeito foram postados a respeito das relações com devotees e com não-devotees. 

Cada relacionamento é único. Por ser único a soma nos traz um resultado diferente.

Quero falar hoje, no entanto, apenas e tão somente do fascínio das deficientes pelo devoteísmo. Quero retirá-as do estado estático que insistem em ficar, mesmo que, participem dos debates.

Sim o devoteísmo fascina. Se assim não fosse, não seria polêmico, não seria notado, não seria execrado, amado ou odiado. E até tratado com deboche.

Lá fora, como costumamos dizer, o mundo gira ao redor da simetria, dos bípedes perfeitos... Ou com defeitos mascarados pela carne. Aqui não. Aqui estamos do avesso, somos assimétricos, tortos. Sim, somos. Não entendo bem, essa mania de algumas pessoas desejarem se enquadrar em quadrados, em quadros. Mesmo que tenham de se violentar.


Então o véu é retirado. Nos vêmos diante dos mais primitivos instintos. Somos desejados! O que fazer com o desejo que despertamos? Bailamos de um lado para o outro. Tantos conceitos, tantos senões, tantos arranhões. E esse frênesi, o arrepio na espinha... Aquele pensamento torto: Devo tentar?

Há acredito, eu, infinitas nuances no devoteísmo. Mas algo é peculiar a todo devotee. O olhar. Só um devotee pode e vai nos olhar como quem deseja saciar sua fome. Vasculhar nossos aparatos, vislumbrar o que se esconde dentro e por trás das próteses, orteses, cadeiras... Basta um olhar para que saibamos que ali se encontra um devotee.

Muito dessa atração, dessa energia, sentimos na net. Sentimos o fio que nos liga.
Todas as teorias, todos os discursos prós e contra o devoteísmo giram ao redor disso. Às vezes penso que todos esses debates são apenas disfarces nessa ciranda onde encontramos essa necessidade de estarmos ligados uns aos outros.

O devoteísmo pode nos dar o céu e o inferno. Muda nossos conceitos, inverte o significado das palavras. É preciso aprender um nomo idioma. Aleijado, não é mais pejorativo, é excitante dependendo do contexto.
Usar cadeira de rodas, próteses, aparatos não mais é apenas necessidade, mas motivo de admiração, motivo de atenção... Ser amputada, ter sequelas de polio, ser paraplégica ou tetraplégica, enfim, ser deficiente é quase ser e ter o ápice da perfeição para alguns. Dentro de um relacionamento isso tudo faz toda a diferença, se houver além disso afinidade, admiração e empatia. Não sei, não sei sinceramente se pode ou poderia haver relação mais forte, mais dolorosa, mais prazerosa e mais visceral.

E eu pergunto, como esse redemoinho pode passar em branco por uma deficiente? Se nem mesmo para os devotees isso acontece?

Difícil jornada essa nossa. Difícil momento. Onde o devoteísmo passa a ser somente o que ele é, um fetiche. Sem que nós, algumas deficientes, essas que ousaram conhecer o sal e o açúcar, o vinho e o vinagre, passamos longe de sequer sermos consideradas mulheres cientes das dores e das delícias de sermos o que somos. Mulheres, deliciosamente, dolorosamente... Mulheres.


domingo, 2 de setembro de 2012

Dr. Miguel... O Cuidador.




Para quem não sabe, Dr. Miguel foi um dos personagens da novela Viver A Vida. Viver a Vida chamou a atenção dos deficientes em geral pela trama tecida ao redor de Luciana, uma jovem modelo que torna-se tetraplégica. 

Houve uma discussão sobre o desfecho do drama vivido pela personagem, inclusive levantou-se a hipótese dela voltar a andar, o que não ocorreu já que o objetivo da novela era de alguma forma mostrar pessoas a se adaptarem à novas situações. Não direi superações, pois o lado negativo também delas existe quando se passa a impressão de que aqueles que não respondem ao que esperam  familia e sociedade em momentos díficeis, esses são relegados e sequer vistos e considerados. Prefiro pensar que cada qual com seu histórico de vida faz sempre seu melhor.  

Bom, voltando ao tema... É sabido entre paraplégicos e tetraplégicos que suas dificuldades vão além da dependência de uma cadeira de rodas ou de seus cuidadores. Mas hoje quero falar um pouco do médico que a acompanhou a personagem Luciana desde o início da trama, ainda na fase andante.

Miguel era um jovem médico,  namorado de uma moça problemática que sofria o transtorno da drunkorexia: A ingestão de bebidas alcoólicas ao invés de alimentos.
Apresentados as personagens, quero elencar algumas das características de Miguel. 

Não sei quais os critérios do autor ao compor personagens, se intuitivos ou embasados em pequisas, talvez outros, talvez os dois. Mas para mim desde os primeiros capítulos Miguel demonstrava ter características muito fortes de um cuidador.
Dividido entre a atração que sentia pela modelo ainda andante e os cuidados com sua namorada trilhava seus conflitos. Médico e como tal por si só, já era um cuidador formal. Cuidadores formais são todos aqueles que fazem parte da área assistencial, desde médicos, psicólogos, enfermeiros, etc.

Cuidadores informais são aqueles que prestam cuidados sem serem remunerados ou reconhecidos como profissionais. Miguel então também era um cuidador informal, já que prestava todos os cuidados à sua namorada problemática. O casal soava até meio estranho, sem encaixe, mas conforme a novela se desenrolava, Miguel foi acentuando sua devoção àqueles que necessitavam de seus cuidados. Devotee? Em potencial, talvez. Submerso. Sempre mesclando atração e cuidado. Fascínio e ternura.

Assim como nem todos os problemas da tetraplegia foram abordados pelo autor, nem todas as características do devoteísmo foram  vistas em Miguel.
A personalidade cuidadora de Miguel talvez tenha sido trabalhada para não soar fora do contexto. Mas é certo que o médico transpirava devoteísmo em suas cenas com a modelo. Os carinhos, o olhar, os toques, os cuidados iam além da atração que desde o início demonstrava por ela. Assim como a atenção para com a namorada foi cessando paulatinamente. O relacionamento se deteriorando enquanto que com Luciana foi se completando, se encaixando no que parecia ser o ideal para o médico... Devoção e paixão. 

No decorrer da novela deficientes reais foram inseridos à trama ajudando Luciana a tirar suas dúvidas em relação a propria sexualidade. O interessante é que não me lembro de Miguel ter tido essas dúvidas ou procurado informaçõe. Manteve-se  quase expectador de si mesmo. Não sei, não acredito que qualquer pessoa que se envolva com deficientes não tenha dúvidas ou não procure também informações sobre a sexualidade da pessoa de seu interesse. Por outro lado, pessoas casadas, namorados de deficientes prestavam seus depoimentos como se fossem verdadeiros príncipes e princesas. 
Em nenhum momento cogitou-se que também o outro, o par do deficiente pudesse sentir prazer em seus relacionamentos e estivesse nesses relacionamentos por outro qualquer sentimento que não fosse amor. Jamais uma atração, jamais o prazer que sabemos que devotees sentem com nosso universo e nós mesmos.

Por que bato nessa tecla? Pois vejo que ainda nossos contatos, namorados, ficantes revestem-se de uma aura de pessoas a nos completar e nunca o contrario, nós, homens e mulheres deficientes completando nossos pares.

Quanto a Dr. Miguel... Findou a trama casando-se com Luciana como num verdadeiro conto de fadas. O que é natural e esperado tratando-se de novelas. O devoteísmo cuidador e ativo ainda que o autor não soubesse ou não quisesse ficou implícito nas entrelinhas. O devoteísmo muito mais do que o devotee  esteve presente entre Miguel e Luciana...

Regina

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Eu prefiro... Eu desejo... Eu exijo...



Então é isso... Apesar de no fetichismo encontrarmos o foco da sexualidade em partes do corpo, lugares, roupas ou funções específicas e essa atração muitas vezes passar a linha limite da preferência para exigência, ainda assim há quem pense  e afirme que devoteísmo seja uma mera atração como por loiras, morenas, etc...
Bem sei que não. Tanto não é que dentro do devoteísmo existe uma hierarquia ou uma qualificação de acordo com os gostos de cada devotee.

Pode parecer um tanto frio esse ponto de vista, mas assim é. Há no devoteísmo diferentes exigências. Falo em exigências para que fique claro que ser devotee não é algo que se possa escolher ou determinar um prazo de validade.  Aos olhos dos devotees, ao toque dos devotees haverá sempre um brilho e uma intensidade maior quando se depararem com uma deficiente.

Há tempos idos, ainda em salas de bate papo, já existia uma separação entre dois grupos dentro do devoteísmo: Devotees Ortodoxos e Devotees Heterodoxos. Ou seja, devotees ortodoxos seriam pessoas com apenas um foco de atração e heterodoxos por mais de uma... Quase sempre ortodoxos preferem ou exigem amputadas e heterodoxos amputadas e outras.  É preciso dizer sempre que há exceções, há devotees com uma gama de atração considerável sem no entanto apreciarem amputadas, mas são exceções.

Hoje, aqui no Brasil é mais comum dizer Devotees de Amputadas e Devotees Universais...  E em alguns países devotees são considerados apenas pessoas que sentem atração por amputadas e admiradores os que estendem essa atração...  Independentemente de como sejam separados esses dois grupos é fato que um sente atração apenas por amputadas e o outro por mais de uma deficiência ou diversas deficiências quase sempre incluíndo amputadas.

Nessa hierarquia do devoteísmo universal ou heteredoxos ou admiradores, amputações estão em primeiro lugar seguido de pólio,cadeirantes por pólio, paraplegia e outras. O que não quer dizer  que não existam exceções, existem, óbvio.

Parece ser um pouco confuso, mas com o tempo vamos assimilando tantos labirintos.

Dentro das amputações ainda existem suas proprias hierarquias. A maioria dos devotees apreciadores de amputações tem no seu topo das atrações, amputações de membros inferiores acima do joelho ou bilaterais.  Também em alguns casos preferem que suas musas não utilizem de próteses para ter um maior acesso aos olhos e ao toque dos cotos.

Talvez soe estranho, mas se formos realistas, não há como ser diferente. São as amputações, é o nosso universo que os atrai, uma hora ou outra o toque, o desejo pelos cotos irá entrar em erupção por mais que esses desejos em uma primeira visão choquem.

Quanto as demais deficiências o mesmo ocorre, são os membros sequelados a atrairem homens e mulheres, é a condição limitada pelo físico que atrai.

Se isso não for aceito, se isso não for o mote do devoteísmo, não é devoteísmo. Mesmo que sejam devotees platônicos é a deficiência que os atrai e ponto e pronto. Acredito que negar isso seja hipocrisia.

A partir da aceitação do devoteísmo tal como é,  tudo fica mais simples. Encarar que haja uma escala hierárquica sem falso moralismo e sem melindres é outro ponto que pode e muito ajudar-nos a nos entendermos melhor sem falsas expectativas e sem cobranças  indevidas.

Portanto, eles preferem... Eles gostam... Eles desejam... Eles exigem que... E nós deficientes podemos gostar ou não gostar, preferir ou não preferir, exigir ou não exigir, desejar ou não desejar um devotee ou varios... Mas eles,  eles, não. Eles não têm escolhas entre o "sim" e o "não". Quando se é devotee existe apenas um caminho, o "sim". Mesmo que não aceitem-se como tal... A deficiência sempre estará provocando seus sentidos.

É isso.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Eu, aleijadinha?




Um dos pontos polêmicos do devoteísmo são suas nomenclaturas. Nem todos apreciam rótulos ou denominações. Devotee, para alguns passa hoje em diversos sites a ter o significado que gostariam que tivesse, para alguns amizade, para outros amor à alma, para outros  admiração pela aura do deficiente.  Mas não é bem assim. Devoteísmo é devoteísmo. É um fetiche, é uma parafilia. Gostem ou não. 
Ou não estaríamos falando de devotees.  Estaríamos falando de pessoas que se relacionam com deficientes, incluíndo familiares, amigos, namorados, simpatizantes, e até cuidadores sem serem necessariamente devotees.
Óbvio que dentro de nosso círculo social e familiar poderemos encontrar devotees. Mas é preciso que fique claro que devotees são pessoas atraídas por deficientes independente de ter um vínculo com algum de nós.

O que verte desse conceito são características pessoais de cada devotee, de cada preferência, de cada exigência. Sim pois pra mim um devoteísmo num grau mais elevado é muito mais exigência que preferência.

A partir disso vem outra polêmica, o estranhamento e a negação com o prazer que sentem devotees com outros rótulos, outros adjetivos a nós direcionados. Entre eles, aleijados, tortos, mancos, etc... 

Oras, sou ou não sou uma aleijada?

O significado de aleijado segundo o dicionario online de português é o seguinte:

Adj. Que tem algum aleijão; mutilado, estropiado, paralítico.

Pois sou uma aleijada! Sou amputada. Nada irá mudar isso. O termo "aleijada" soa pejorativo, soa desqualificativo, soa uma diminuição, soa quase um xingamento dependendo do contexto.
Mas em outro contexto, no contexto do devoteísmo,  esse mesmo termo é quase uma provocação sensual, um apelo sexual e erótico.  Sei que parece estranho e de mau gosto. Mas se um devotee sente atração por deficientes, sente atração por nossos aleijões. É isso que os atrai. Mesmo aos devotees cuidadores platônicos  buscam em nós nossas sequelas e mazelas. Assim nada mais excitante para alguns devotees do que usar o termos "aleijadinha", "amputadinha" e outros como forma vocativa de carinho.

Já, para as deficientes, se estiverem realmente à vontade dentro de uma relação com um devotee e esse devotee souber trabalhar seus conflitos  deixarão com o tempo todo o peso que possam ter adquirido ao serem apontadas como menos, como inferiores quando chamadas de aleijadas.  
Será quase uma catarse. E catarses trazem à tona todos os nossos sentimentos negativos libertando de velhos e pesados traumas...

É isso...

Regina